?

Log in

No account? Create an account

lanças nuas
rosas
innersmile
O poema intitula-se CERTIDÃO DE ÓBITO, e Rui Knopfli publicou-o num livro de 1964, Máquina de Areia. As guerras nas colónias sob administração portuguesa tinham apenas começado, e demorariam mais dez anos até chegar esse dia em que o império iria embalar os seus desmantelados restos num contentor e zarpar. E no entanto este poema lê toda essa realidade por vir: a da guerra, a do fim dela, a do êxodo. Como se fosse um programa para os dez anos da história que se seguiriam: da história de um, de dois países, e também a história pessoal do poeta, e a de todos nós que vivemos trémulos nas linhas clarividentes e lúcidas de uns versos.


Um tempo de lanças nuas
espera por nós, riso
cruel de maxilas em riste.
Entanto a vida desabrocha
tenra e tépida,
fruto e flor na ânsia secular
de quem tanto esperou em vão.
Para nós, todavia,
o tempo é de lanças impiedosas,
de lâminas em cuja brancura
se adivinha já um indício
do nosso sangue. Deste tempo
sobrou-nos a acerado das lanças:
este o quinhão ácido que nos coube
e que mastigamos resignadamente.

Entanto, num levedar de ternura,
frágil e muito bela, a vida desponta
na negra polpa de outros dedos.
Para nós, o prémio do aço,
a estrela da pólvora, a comenda do fogo.
Para nós a consolação do sorriso triste
e da amargura sabida. Falamo-nos
e nas palavras mais comuns
há rituais de depedida. Falamos
e as palavras que dizemos
dizem adeus.

a porta do gama
rosas
innersmile
Terá sido o Dom Luís, ou um dos outros passarinhos, que me levou, através do labirinto, até à porta do Gama.
Era ali, dizia ele, a casa do Vasco da Gama, quando ele viveu na Ilha.
Eu não guardava recordação desses frisos verdes, no álbum da memória. Mas lembrava-me de já ter visto a porta, em fotografia a preto e branco, no admirável livro de Rui Knopfli, A Ilha de Próspero.
Para mim, esta porta carcomida pelo tempo e pelo sal, é um relógio. Mais do que um símbolo. Trouxe-a com desvelo e guardei-a, por aí, num verso. Ou melhor, roubei-a.

a porta do gama



NENHUM MONUMENTO

Não são aparentes em ti as marcas de grandeza
nenhum monumento desfigura
ou altera a monotonia sem convulsões
do teu rosto quase anónimo.

A escassez de ogivas, arcobotantes,
rosáceas, burilados portais, cobra-la tu
na gravidade das tuas sombras
e do teu silêncio. Não vem sequer

da tua voz a opressão que cerra
as almas de quantos de ti
se acercam. Não demonstras,

não afirmas, não impões.
Elusiva e discretamente altiva
fala por ti apenas o tempo.


- Rui Knopfli



[Primeiro, hoje não é 'Rui Knopfli day', podendo embora parecer que é. Mas é sempre dia de ler alguns dos mais belos poemas escritos na língua em que amamos. Segundo, pela primeira vez, 'importei' uma entrada que pus noutro sítio aqui para o innersmile. Terceiro, também pela primeira vez aparece uma entrada pública com fotografia. Uma vez sem exemplo]