September 16th, 2004

rosas

(no subject)

Para a S.
(no dia em que fez anos)



Já te abri, sem mo pedires, a porta dessa história e tu entraste e sentaste-te e declinaste as ruas como se houvesse um mapa que fosse teu e outro mapa que me estendias para eu ir inventando à medida da memória. Já vimos o campo, e olhámos as altas nuvens, como se não houvesse lugar para o espanto nos nossos olhos perplexos. Deste-me um nome, à medida que o dia ia passando, e nós andávamos em volta, percorrendo a sombra das árvores e a orla do mar, parando, sem parquear, nos lugares dos dias dos outros.

Leste essa história como se ela fosse tua. Sentaste-te, já disse, e fumaste um cigarro, quem poderia dizer que era o último, e escutámos atentamente o silêncio que se desprende das asas das aves invisíveis. É de noite, estava eu para te dizer, mas o morrão do teu cigarro era um farol imperturbável.

Se falasses, dirias que somos três, que eu e tu não somos sem mais um lugar à mesa, e que habitamos tanto este calor que nos conforta, como a ausência que tecemos suave como uma dor.

Há um segredo qualquer que partilhamos. Mas não temos dele nem uma ideia vaga. Vimos o mar. E ouvimos cantar os animais, que julgámos ser a voz dos nossos sonhos. Calcorreámos as ruas e contámos vivos e mortos. Saímos lado a lado e esperámos numa estrada vazia a hora do regresso.

Se abrires a tua mão, vais ver que está lá a parte boa de mim.