September 11th, 2004

rosas

the terminal

Junta-se a fome com a vontade de comer: mais de um mês sem ir ao cinema e logo um filme do Spielberg. Parece-me que isto vais ser confuso...

Apesar de The Terminal não ser exactamente um típico filme de Steven Spielberg, se bem que é sempre um pouco idiota achar-se que um cineasta tem de fazer sempre um determinado tipo de filmes. Além disso, digamos que The Terminal só não é um filme típico de SS porque lhe faltam os adereços, o pano de fundo. Normalmente os filmes de SS tem um de dois panos de fundo: um cenário de ficção científica ou uma família de classe média. Ás vezes, como no caso de ET ou de Close Encounters, têm os dois! Mas há uma situação que é recorrente nos filmes do realizador, digamos que é o seu tema, e que é um tema clássico dos contos de fadas: alguém perdeu (ou perdeu-se) o caminho de casa e luta desesperadamente por reencontrá-lo. Uma clássica situação Hansel & Gretel. Assim também acontece neste The Terminal, em que Viktor, a personagem de Tom Hanks, anda muito mais perto de ET do que poderia parecer à primeira vista. Até nas tentativas de telefonar para casa.

Mas mais interessante é pensar naquilo que torna este filme diverso da generalidade da filmografia do realizador. Em primeiro lugar, e na minha opinião o aspecto mais interessante do filme, aquilo que o torna especial, é o facto de todo o filme (bem, quase todo) se passar no mesmo cenário, no mesmo espaço, o terminal dos voos internacionais de um aeroporto. Há aqui dois planos a considerar. O primeiro é o da própria narrativa. Toda a narrativa se desenvolve em dois aspectos fundamentais, em dois eixos: o tempo e o espaço. Qualquer história é sempre a história de como determinado ou determinados espaços são ou vão sendo ocupados ao longo de determinado tempo. Quando, como é o caso deste filme, a vertente espacial se encontra confinada a uma determinada unidade, o filme, em vez de passar, mais ou menos cronologicamente, ou linearmente, de um espaço a outro, tem de se instalar, tem de desenvolver, tem de ocupar esse espaço de que dispõe. Por isso, vamos conhecendo progressivamente o espaço do terminal ao longo do filme, quase como se Viktor fosse o nosso guia turístico. As peripécias da narrativa vão percorrendo os diferentes espaços, mas como esses espaços são só um, há sempre um jogo de referências, de espelhos, entre os diversos locais da acção. Quase como se fosse um cenário de teatro que vai evoluindo, que se vai construindo e modificando à nossa frente, mas sempre utilizando o mesmo arquétipo cénico, a mesma estrutura. Isto leva-nos ao outro aspecto interessante e que tem a ver com a noção, muito cinematográfica, de set. Sabe-se que o terminal do filme foi construído de propósito num gigantesco hangar de aviões transformado em estúdio. E é espantosa a construção deste cenário enorme, a forma como ele vai ganhando consistência aos nossos olhos, a maneira como parece ao mesmo tempo um cenário naturalista, quase como se o filme fosse filmado ‘on location’, e como os espaços têm uma contiguidade, uma justaposição, uma ‘curvatura’, uma certa redondez, que só é possível de conseguir filmando em estúdio.

Outro aspecto muito interessante do filme tem a ver com a personagem principal, com a forma como está construída. Viktor quase não passa de uma caricatura, é uma espécie de homem-objecto, uma personagem sem psicologia mas com um intenso programa. Claro que para isso contribui muito o desempenho de Tom Hanks, que aproxima a personagem de uma daquelas figuras clássicas do burlesco (não têm faltado por aí referências a Buster Keaton). Mas contribui igualmente o recorte um pouco ‘capraesco’ da personagem, que existe não tanto como motor da narrativa, das peripécias, do evoluir do enredo (à maneira de um filme de acção), mas antes como modelo e exemplo. Mais do que pelo destino da personagem, o que nos interessa no filme é como é que ela vai conseguir impor a sua estatura moral não só à situação um pouco kafkiana em que se vê envolvida, mas também a toda a galeria de personagens secundárias, elas sim pessoas da vida real, cujos destinos começam a girar, e a depender, dessa personagem principal.

Este aspecto, o da natureza moral do filme (ou não fosse ele uma variação dos contos de fadas), é notório neste filme porque assume uma clara tónica política. Sendo um lugar de viajantes, o terminal do aeroporto torna-se a metáfora perfeita de uma América que sendo, por natureza digamos que ‘constituinte’, uma nação de emigrantes se vê de repente a braços com um forte sentimento de medo e ameaça do que vem de fora. Contra a ordem burocrática e formalista do sistema (no caso do sistema alfandegário, mas no limite de todos os sistemas de instituicionalismo social e político), Viktor apela e redime um verdadeiro exército de outsiders (os seus três companheiros de ‘subterrâneo’) e de pequenos trabalhadores (das lojas, dos restaurantes de junk food, os próprios policias em serviço no terminal), convocando-as, e ao seu apoio, na sua resistência à lógica impositiva do sistema. No ideário, não só político, americano, este filme de Spielberg será uma obra de cariz acentuadamente democrático, liberal (aliás, é clara e tem sido destacada a sua filiação no cinema de Frank Capra, no género Mr Smith Goes To Washington), o que levanta uma questão particular: sendo o cinema de Spielberg habitualmente tão pouco político (estamo-nos a lembrar de Clor Purple como uma possível excepção, dado que a mensagem de A Lista de Schindler é muito mais humanitária que política), será mera coincidência a opção por um filme com um subtexto político, ainda que não muito marcado, mais subtil, em ano de eleições presidenciais americanas, sabendo-se que são as eleições mais empenhadas e radicalizadas politicamente dos últimos 30 anos? Ainda que a pergunta pareça absurda, será que Spielberg fez com este The Terminal o seu Farnheit 9/11?

Eu ia concluir, à laia de súmula, dizendo que este era um dos Spielbergs mais interessantes dos últimos anos, mas a verdade é que eu gosto muito do cinema dele e acho todos os seus filmes muito interessantes.

Só para chamar a atenção para outras duas coisas: a música cada vez mais interessante de John Williams, e as soluções sempre engenhosas do genérico, que, neste caso, corre no final do filme.