September 6th, 2004

rosas

pedro homem de mello

Comemora-se hoje o centenário do nascimento de Pedro Homem de Mello. Não sendo um daqueles poetas maiores do friso dourado da poesia portuguesa do século XX, é todavia um poeta muito interessante. Muito musical, uma poesia fácil e acessível (mas fácil e acessível não significa que seja débil ou primária), com um vocabulário rico e colorido, é um daqueles poetas que se lê sempre, é sempre possível desfolhar o livro e contar que um poema vai saltar das páginas.

Pessoalmente, é dos poetas que me acompanham desde a infância, e por duas portas. Uma, porque foi professor, ou mesmo director, do colégio onde o meu pai estudou, no Porto, ali nos anos quarenta no pós-guerra imediato. A outra porta foi, naturalmente, o fado e Amália. Aliás, eu soube que o meu pai tinha sido discípulo de PHdM, pelo orgulho que o meu pai manifestava quando era ele o autor das letras dos fados. Mais tarde, já no fim da adolescência, o meu interesse pela poesia de PHdM ganhou novo alento quando descobri que ele era homossexual. Desatei a ler a sua poesia com essa atenção microscópica que os gays da minha geração sempre dedicavam aos autores homossexuais, na esperança de conseguir ler nas entrelinhas referências a uma realidade que era totalmente abafada. É verdade, a homossexualidade era coisa de maricas, não havia referências, modelos, revistas, marchas, e muitas vezes a literatura era mesmo, e ainda assim de uma forma disfarçada e subtil, a única janela para essa realidade escondida.

O fado mais conhecido que Amália cantou com poema de PHdM é, claro, o Povo Que Lavas no Rio. Mas não é o meu preferido. Desde pequeno, desde que conheci esse fado, no célebre disco que reuniu Amália e Vinícius de Morais, disco que esteve apreendido antes do 25 de Abril (julgo que por causa do belíssimo Fado Abandono, ou Fado Penhiche), mas que houve e sempre se ouviu em casa dos meus pais, desde míudo que o meu fado da Amália preferido sempre foi o Havemos de Ir a Viana, que, lá está, tem letra de Pedro Homem de Mello. Tudo é perfeito neste fado: a canção, de Alain Oulman, alegre e esperançosa como um dia de Verão, o poema de Homem de Mello que é lindo, musical e sensual como o mais louco dos casos de amor, e a voz aberta, feminina, calorosa, cheia de vontade, de Amália Rodrigues. É um fado alegre, muito sensual, cheio de promessas, um fado que nos faz pensar em tardes de Verão passadas à sombra, no verde mais verde do Minho, a comer fatias de melão, e ao lado de um corpo de pele lisa e tisnada.

É assim o poema de Pedro Homem de Mello, apesar de ser uma pena aqui o innersmile não poder levar a embalagem completa. Este poema sem aquela melodia, sem aquelas guitarras e sem aquela voz, fica muito despido. A não ser, como acontece comigo, que ao ler as palavras estou a ouvir tudo na minha cabeça!

Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Ciganos, verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorsos têm oitenta.


Aqueles versos «se o meu sangue não me engana / como engana a fantasia», dizem tudo, caramba, basta segui-los.
O único livro que tenho do Pedro Homem de Mello é uma antologia muito antiga (comprada em 1988!), editada pela Imprensa Nacional, e creio que escolhida ainda pelo poeta, que tinha falecido em 1984 (a edição é de 1983, portanto anterior à morte do poeta). Tenho uma certa curiosidade em conhecer as antologias que foram recentemente publicadas, nomeadamente a organizada por Vasco Graça Moura, cujo critério é sempre de respeitar. E tenho curiosidade, sobretudo, porque nesta antologia que eu tenho não vem o célebre poema do Rapaz da camisola Verde, pelo menos aquele de que foi feito um fado, e que, na minha opinião, tem um subtexto homossexual razoável.
Mas foi a este livro que eu tenho que fui buscar um poema que apesar de ser curto é verdadeiramente admirável, poderoso como um daqueles ciclones que varrem a Florida, e que, em pouco mais de meia dúzia de versos, nos põe no próprio cerne do que é a poesia, de que matéria ela é feita, e que bastava para pôr o nome de Homem de Mello no panteão dos poetas que a língua deve resgatar ao esquecimento. Intitula-se, justamente, POEMA, e é assim:

Não pela dor de quantos padeceram
Nem pelos versos dos que em vão choraram,
Nem pelo tédio dos que me esqueceram
Nem pela sombra dos que já passaram,
Não pela redenção, não pela glória,
Não pela forma estéril de uma data,
Não pela vida frágil, sem memória
Mas pela morte, em cada curva, exacta...