September 5th, 2004

rosas

milagres e anjos

Deve haver uma lei da vida, uma daquelas leis que tentam formular de forma racional o que não passa de crueldade do acaso ou de cristalização do senso comum, deve haver uma dessas leis que diz que estamos sempre desacompanhados quando presenciamos um milagre. Somos sempre testemunhas únicas dos milagres, falta-nos sempre o testemunho do outro para comprovar perante terceiros a veracidade do relato.

Fim de semana de jazz na edição de 2004 do FozJazz, na Figueira da Foz. Na sexta-feira, um dos melhores espectáculos a que já assisti, de Charles Lloyd, em sax tenor e flauta, uma música muito astral, tipo banda sonora para os primeiros minutos do big bang, música de um universo em expansão. Os restantes músicos do quarteto (Geri Aleen, piano, Reuben Rogers, contrabaixo e Eric Harland, Bateria) muito jovens e muito bons. Lloyd é daqueles músicos tão bons e dominantes, que tocam mesmo quando não estão a tocar, a sua presença sempre muito marcante, mesmo nos momentos em que se sentava e deixava a prestação por conta dos outros músicos.
O outro concerto da noite do pianista Filipe Melo, em trio, com Bruno Santos, guitarra, e Bernardo Moreira, contrabaixo.
Ontem, Sábado, primeira parte com o Quinteto do pianista Rodrigo Gonçalves, Triboloy, que incluiu Perico Sambeat, saxofone alto, Mário Delgado, guitarra, Paco Charlin, contrabaixo, e Alexandre Frazão na bateria. Na segunda parte, o jazz essencial de Frank Morgan, sax alto, com Georges Cables, piano, Curtis Lundy, contrabaixo, e Billy Hart, bateria.

Inaugura-se hoje em Coimbra uma das tão prometidas, e necessárias, piscinas municipais. O que quero aqui registar, e salientar, é que este complexo de piscinas da Pedrulha, tem o nome de Rui Abreu, uma justíssima homenagem a um dos maiores atletas que a cidade teve.
Apesar de não sermos amigos, tínhamos amigos comuns, uns que já vinham de Moçambique, outros feitos cá, e um conhecimento que ganhou algum cimento no balcão do Gil Vicente, onde partilhávamos o ‘cantinho’ preferido para ver o bom cinema que passava no Gil, nesses longínquos finais de 70 princípios de 80.
A morte do Rui Abreu marcou-me muito, como marcou muito os seus amigos, e o circulo de pessoas em que nos movíamos. Para além da estupefacção brutal da morte de alguém da nossa idade, quando temos vinte anos, as circunstâncias dessa morte foram particularmente violentas. Eu andava por esses anos a descobrir o Fernando Pessoa, e ainda hoje não sou capaz de ler um certo poema do Álvaro de Campos sem sentir um arrepio terrível e profundo. Além disso, eu acho que tinha uma secreta paixão por ele, por corresponder a um ideal de beleza física que, naturalmente, na altura me fascinava, tanto mais ainda por não ser totalmente consciente, e a sua morte, a fragilidade, a perecibilidade dessa perfeição, a possibilidade de haver uma sombra trágica e fatal numa beleza que parecia perfeita e indestrutível, foi uma coisa que me perturbou muito.