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(no subject)
rosas
innersmile
Já esta noite, telefonema da C., a dizer que o irmão dela morreu. A notícia não é inesperada, pelas últimas notícias que ela me ia dando, adivinhava-se o desfecho, e que estava iminente. Há perto de um mês, a C. veio inesperadamente lá do oriente distante onde ela está agora, para estar perto dele, para, de certo modo, estar perto dela própria. A mãe dela também veio lá da ponta sul do mundo. Uma senhora de anos longos, que soma agora este desgosto àquele mais antigo que ensombra a família e em especial a C.
Nunca conheci bem o irmão da C. Estive com ele em duas ou três ocasiões. Numa delas, a noite demorou-se pela madrugada, entre guitarras, copos e histórias divertidas. Era um daqueles tipos grandes, despenteados, que parecem sempre estar um pouco fora deste mundo ordenado e sistémico. Há pessoas assim, parecem estar sempre fora do mundo, desconformadas, ou desenformadas. São tipos que nos recordam a cada passo que a vida é sempre possível fora das convenções e das hierarquias. Fora, em suma, daquilo a que chamamos (chamava quem? o O'Neill?) 'a vidinha'. Claro, esses tipo espalham sempre um pouco de perturbação à sua volta, e muitas vezes são as pessoas de família, os filhos nomeadamente, que acabam a pagar um certo preço por tal desconformismo. Mas divago...
Liga-me à C. um passado longuíssimo, ela é uma das minhas mais velhas amigas, das mais antigas, seguramente uma das amizades que remontam há mais tempo. À infância, que, claro, é de todos o lugar que mais. O irmão dela é (ainda não é tempo de passar a dizer 'era') mais velho do que nós, da geração talvez do meu irmão ou da que o precedeu - nestas amizades antigas, a geração tem a ver com o ano em que se entrou para o liceu. Mas o irmão dela faz parte desse passado que é um caldeirão enorme para onde vamos deitando as memórias e onde vamos buscar, inevitavelmente, a sopa que nos dias mais áridos é a única capaz de nos matar a fome.
Durante mais de quinze anos, esse passado da minha infância esteve tão esquecido da minha vida. Estava lá, era uma cortina diáfana, mas de alguma forma eu tentei viver apesar desse passado, independentemente dele, sentia-o às vezes mesmo como um certo embaraço. Até que um dia a C. encontrou-me e, por causa dela, mesmo quando parecia que a estava a gozar, a brincar com a sua memória rigorosa, a admirar a sua capacidade de descobrir, manter e desenvolver os laços, comecei aos pouquinhos a pacificar esse passado da minha infância, a voltar a ele. Até ter a oportunidade de voltar a ele fisicamente, pisar o seu chão, respirar o seu ar, beber a sua água, naquela que foi uma das experiências mais absolutas da minha vida, daquelas que nos marcam, das quais não saímos ilesos, não somos mais os mesmos que éramos dantes.
Hoje o Pedro morreu. Tinha quê?, cinquenta e tais anos? Era um dos nossos. E hoje toda a minha capacidade de me comover com a vida, mesmo quando ela é tão cruel e desesperada, vai para a Cristiana.

cfa4ever
rosas
innersmile
Cada novo livro de Caio Fernando Abreu que leio é uma nova camada. Uma camada de profundidade.
Agora estou a ler Ovelhas Negras, um livro que tem a especificidade de ser construído com contos que CFA escreveu ao longo de trinta e tal anos, entre 1962 (tinha o autor 13 ou 14 anos) e 1995, quando a morte começava já a dobrar a esquina, e que Caio foi deixando de lado, por publicar, ou publicados em revistas. Como todos os livros de Caio, e isto é só mais uma das características admiráveis deste autor, cada livro não é uma mera colecção de contos avulsos, é uma construção estruturada, com um determinado conceito, que pode ser mais enunciado ou mais resguardado.
Faltam-me ainda dois ou três contos para terminar o livro, dos mais de vinte que o compõem. Há, naturalmente, contos de valor muito desigual, o que aliás é assumido pelo autor. Veja-se, aliás, a coragem de publicar um conto escrito aos catorze anos de idade; mas não nos deixemos enganar: mesmo um conto tão marcadamente adolescente como esse inaugural A Maldição dos Sante-Marie, na sua ingenuidade e até simplismo, mostra algumas das marcas do contista que havia de vir, como o uso perfeito da elipse, que é fundamental num escritor de histórias curtas, em que muito da narrativa se passa precisamente nesse espaço e tempo que fica de fora do que é narrado.
Fiquei impressionadíssimo com o conto 'O Escolhido', que, conta o autor, foi escrito para o Jornal do Brasil por ocasião das presidenciais de 89, quando a Caio foi encomendado um conto baseado na infância de um dos candidatos, precisamente o que iria sair vencedor das eleições, Fernando Collor de Mello. O conto não foi publicado porque a direcção do JB o considerou «altamente ofensivo». Percebo perfeitamente que o JB não tenha publicado o conto, para mais sabendo que Collor seria o provável futuro Presidente. Mas percebo essa atitude, não porque considere que o conto seja 'ofensivo', mas porque é tão revelador, tão claro no retrato psicológico que faz, tão provocador no desvendar da verdade (a verdade profunda, a verdade da 'personagem', mais do que a fantasiada verdade dos factos narrados), tão ousado e crú, que, não duvido, qualquer editor pensaria duas (ou três, ou quatro...) vezes antes de o dar à estampa.
Mas há dois contos neste livro que me conquistaram em absoluto, e que vão para a minha galeria pessoal do Caio Dourado. O primeiro é 'Introdução ao passo de guanxuma', um retrato geográfico e espiritual de uma cidade do estado de que Caio era natural. Passo de Guanxuma é um dos locais recorrentes na ficção de Caio, ao ponto de que eu cheguei a perguntar a quem sabe se ele era um lugar verdadeiro ou uma cidade ficcionada. Foi, por isso, muito emocionante descobrir agora essa cidade imaginária, aprender os eixos fortes que Caio traça para suportar uma cidade que seja, citando Ruy Bello, "um lugar onde".
O outro conto é 'Lixo e purpurina', um diário (que mais poderia ser?) meio verdadeiro meio ficcionado, baseado em fragmentos escritos pelo autor durante seis meses de uma estadia em Londres. Primeiro dizer que Caio cita, aliás, utiliza quase como um motivo musical, a expressão London, London, da canção de Caetano Veloso que é uma das canções que me são mais pessoalmente caras. Dizer também que o facto de o diário se passar em Londres, e 10 exactos anos antes de eu conhecer a cidade e nela também viver um dos (ou 'o') períodos mais importantes da minha vida, também não me deixou indiferente. Dizer ainda que tentar descobrir que fragmentos podem ser verdadeiros e quais são pura ficção, é apenas o menos interessante dos desafios que o livro coloca. Porque o mais interessante desses desafios, é tentar reconstruir a partir de fragmentos muitas vezes dispersos, vagos, impressivos e até contrditórios, de que matéria é feita a relação de uma pessoa (um escritor, um narrador) com uma cidade, e como essa relação pode por vezes ser a peça fundamental de um processo de crescimento e redenção. Como muitas vezes é preciso sair para voltar, e como é disso que também se faz um homem.

«Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé - não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que,
se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exacto. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre. Sinto uma dor enorme de não ser dois e não poder assim um ter partido, outro ter ficado com todas aquelas pessoas.
Volta a pergunta maldita: terei realmente escolhido certo? E o que é o "certo"? Digo que todo caminho é caminho, porque nenhum caminho é caminho. Que aqui ou lá - London, London, Estocolmo, Índia - eu continuaria sempre perguntando. Minhas mãos transpiram, transpiram. O nariz seco por dentro. Não quero escrever mais nada hoje.»



Este texto é dedicado a quem me ofereceu Caio Fernando Abreu: primeiro falando-me nele, incitando-me a curiosidade e a descoberta; depois, dando-me a conhecer textos, contos, através do correio electrónico; finalmente emprestando-me, sem termo ou condição, um saco de livros de Caio, e oferecendo-me dois deles. Por isso, este meu amor pelos livros de Caio Fernando Abreu tem também a forma de uma gratidão.
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