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conto: santa fe
rosas
innersmile
SANTA FE

Era o final da tarde de um Sábado e tu descias a Calle Santa Fe, cheia de jovens e apetecíveis adolescentes. Tropeçaram-te os passos numa escadaria larga e tu, mais por desfastio do que por qualquer necessidade espiritual, entraste nas portas largas de uma igreja, cheia, àquela hora vespertina, de fiéis devotos. Deste uma volta pelo interior da igreja, e descias já os degraus quando te desviou a atenção para uma capela que ficava à esquerda da porta, fora da nave principal, mas ainda debaixo das colunatas do frontispício. Foste espreitar, é claro. Era uma capelinha pequenina, à porta a habitual caixa para os donativos, um altar central com uma imagem do Senhor, e a cujos pés uma mulher muito jovem rezava fervorosamente. De cada um dos lados do altar, duas peanhas cada uma com seu santo. À esquerda a Mãe de Jesus, à direita um santo trazendo no colo o Menino Deus, à semelhança de António, santo de Pádua e de Lisboa, e que apesar de não encaixar exactamente no teu catálogo mental das imagens de santos, aceitaste ser o santo casamenteiro. Cada uma destas imagens laterais apresentava pedaços de pintura totalmente gastos pelo toque esperançado de milhares de mãos de desamparados como tu, ou mesmo mais do que tu. Na Senhora era uma das mãos, e na outra era o joelho rechonchudo do Menino ao colo.
Para além da já apresentada jovem devota, reparaste imediatamente, na realidade reparaste até antes de entrares na capela, quem sabe até foi isso que te chamou da rua, em dois outros homens. Eram dois maricas, um casal provavelmente. De pé, junto à porta, um tipo a chegar-se aos trintas, nem alto nem baixo, entroncado, bigode e cabelo negros e fartos. Vestia calças de ganga, de sarja barata e gasta, uma camiseta que lhe cingia o tronco sem o apertar, e era moreno como os índios que moravam naquela terra antes da chegada dos próprios santos. Braços cruzados no peito, olhava serenamente para o amigo, fugindo-lhe o olhar ora para a rua ora para quem, como tu, se atravessava no seu caminho.
Lá dentro, perfilado de fronte da Senhora, o outro maricas era consideravelmente mais novo, raiava os vinte, mas tinha o rosto cansado e gasto de quem já bebeu a vida em cálices de vários e variados altares, uns mais amargos do que outros. As faces chupadas, os ossos do rosto salientes, o corpo muito magro e seco. Vestia uma polo vermelha berrante e esgaçada no colarinho, calças de ganga americanas, muito justas e sujas, mais do uso do que do gasto. Rezava fervorosamente, como quem pedia em desespero, e passava a mão pelo manto suave e colorido da Senhora, ora lhe agarrava a mão manchada, como que a chamar a atenção da sua interlocutora para as partes mais importantes do seu relato ou da sua prece. Depois levantou-se e sem trocar o olhar suplicante com a ternura um pouco disfarçada do companheiro, foi rezar aos pés de António.
Atrás de ti a rua agigantava-se. Um movimento de grande metrópole, gente, carros, luzes e buzinas, com a cor e o sotaque do súbito entardecer austral. Tu tinhas lido nos guias que a avenida, para além de ser um importante centro comercial dedicado aos jovens, era um dos lugares de engate homossexual. Talvez então, pensaste tu com o sarcasmo a rasgar-te os lábios, esta capela fosse a catedral das mariposas.
Entretanto, a jovem devota levantou-se e entre fervorosos protestos a toda a santidade presente, beijos nas mãos e toques nas superfícies gastas, saiu da capela, deixando-te sozinho com os outros dois. Ai Senhora dos Desamparados, rezaste tu em silêncio, dai-me forças para aceitar o meu destino como vós queirais que ele seja, a lascívia a toldar-te um pouco a capacidade de análise. Olhaste bem nos olhos do índio que continuava encostado à porta, mas que desviou os olhos de ti, deu-te os ombros e desceu a escadaria acendendo um cigarro.
Foi então que o mais jovenzito se levantou, chegou-se ao pé de ti e segurou-te na mão. Lias-lhe nos olhos baços e nas faces macilentas a agonia do destino. Mas não conseguias perceber o que dizia, os lábios movendo-se depressa demais, em oração, e em voz suficientemente baixa para conseguir ser ouvida pelos santos, que têm, graças a Deus, ouvidos de tísico, mas não por ti. Continuou a rezar, enquanto te segurava com força a mão e aproximava os lábios, que não paravam de mexer, da tua boca. Sentiste-lhe o hálito, a cigarros e a medicamentos. As palavras que repetia sem cessar, cada vez mais depressa, cuspidas pelos lábios finos e exangues, já não percebias se eram a prece ou um insulto. Sentiste-te enjoado e ameaçado, tomado por um pânico repentino, e começaste a suar, mas não tentaste afastar a mão que segurava a tua como uma garra.
Nessa altura estavas já de costas coladas à parede, e apesar de seres bastante maior e mais corpulento que o outro, não sentias a força necessária para empurrar o corpo franzino que te empurrava. Pelo canto do olho espreitaste para a rua mas só vias a figura robusta do outro, de costas para ti, os ombros enfiados nos bolsos das calças, o fumo do cigarro soltando-se por entre o cabelo crespo. Foi então que o rapaz parou de rezar, olhou-te fixamente nos olhos, e disse qualquer coisa que nem percebeste muito bem, mas que, posteriormente, tu pensas que tenha sido do género «estarei à tua espera, não te demores». Deu-te um beijo na boca. Apesar do hálito um pouco enjoativo, foi um beijo húmido e macio e demorado, que te tranquilizou. Depois saiu porta fora, desceu a escada e desapareceu avenida abaixo, lado a lado com o companheiro.
O coração ainda a bater-te no peito, ficaste sozinho na capela. E passou-te pela cabeça a ideia de que trocarias de bom grado a tua vida pela vida daquele rapaz que te beijou. E então, esforçando-te para organizares mentalmente uma oração, já que os teus lábios não conseguiam articular palavra, pousaste a mão no joelho gasto do Menino.
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