?

Log in

No account? Create an account

gaystapo
rosas
innersmile
Na edição de Julho da Attitude, um artigo interessante, e perturbante, sobre as ligações entre a homossexualidade e a extrema-direita, na Europa. Só para dar o tom, chega-se a afirmar, a certa altura, que Le Pen é o único líder da extrema-direita que não é gay, pelo meio de referências a Pim Fortuyn e a Jorg Heider (no caso deste, mais insinuações que verdadeiras dúvidas, parece-me).
O artigo faz a história do movimento fascista inglês do ponto de vista da homossexualidade de muitos dos seus dirigentes, nalguns casos suspeitada ou intuída, mas noutros notória e assumida pelos próprios. Como o caso de um tipo que foi um dos líderes do movimento fascista nos anos 70, ao mesmo tempo que participava em filmes porno gay, que chegou a participar numa marcha do gay pride, em Londres, e que acabou por morrer com Sida, em 1986.
É ainda dedicada alguma atenção à figura de Ernst Rohm, um dos teóricos fundadores do nacional socialismo alemão, e que foi um dos protectores de Adolf Hitler e apadrinhou a sua ascensão nos círculos políticos da extrema direita alemã. Rohm acrditava na superioridade da homossexualidade como epítome da superioridade rácica e viril. Na noite de 30/6/1934, Rohm foi acordado por Hitler em pessoa, que lhe deu ordem de prisão. Foi fuzilado nessa mesma noite, tornando-se na mais famosa vítima da chamada Noite das Facas Longas, como ficou cohecida a purga que Hitler fez no partido nazi, decapitando todos os que lhe pudessem fazer sombra.
O artigo discute seguidamente a alegada e discutida homossexualidade de Hitler, contrapondo testemunhos de que Hitler teria mantido relações com alguns homens e a sua incapacidade em manter relações sexuais com mulheres (nomeadamente com Eva Braun), com registos das suas teorias de que a homossexualidade era contagiosa e destruidora. Além disso, a história regista também a maior prova de que Hitler não gostava de homossexuais: os milhares ou milhões que foram aprisionados e mortos nos campos de concentração.
O artigo refere-se também a Bruce LaBruce, um fotógrafo e cineasta americano que tem alguns trabalhos, nos quais a fronteira entre o erótico e o pornográfico é muitas vezes questionada, que andam à volta dos chamados gay-skins que têm manifestas simpatias nacionalistas.
Finalmente o artigo formula e discute a grande pergunta: porquê? Porque é que os gays não são imunes ao fascismo, estando mesmo muitas vezes no seu coração, no que é uma paradoxal contradição: como pode descriminar aquele que se afirma vítima de discriminação, como pode advogar a opressão aquele que frequentemente se queixa de ser reprimido e que luta pela dignificação dos seus direitos de cidadania ligados à sexualidade.
Nesta discussão, são convocados testemunhos de líderes fascistas, de judeus, de agentes culturais (o já referido LaBruce) e de activistas gay (o Peter Tatchell). As razões adiantadas são várias, das mais simples às mais rebuscadas, das mais políticas às mais ‘freudianas’. Explicações que tentam ultrapassar esse aparentemente intransponível paradoxo: que a homofobia é sempre uma espécie de racismo, e que ninguém minimamente lúcido, inteligente e saudável, pode odiar aquilo que é.
Mas sejam quais forem as causas ou as explicações para esta ligação, e no caso de haver efectivamente uma conexão que seja consistente e demonstrável, particularmente pelas ciências sociais, a verdade é que, como comecei por escrever, este artigo me causou algum incómodo. Assim como sinto satisfação (e até um indisfarçavel orgulho) quando um gay ou uma lésbica de distingue pela positiva na cultura ou na política ou na arte ou no desporto ou na ciência, ou noutra área da actividade humana, a verdade é que não consigo deixar de sentir certo embaraço por este eventual, e inaudito, fascínio que alguns homossexuais sentem por uma das coisas que pessoalmente acho mais condenáveis e, levada às consequências que todos conhecemos, mais tenebrosas da história, e do espírito, do homem.