August 15th, 2004

rosas

beira

Abres a porta da cozinha, que deita para leste, e à tua frente há um pequeno terraço, mais para o quadrado do que para o comprido, em cimento. A seguir ao terraço, um quintal coberto de folhas largas da aboboreira, algum mato à mistura, ladeado de videiras, e com árvores de fruto: macieiras, pereiras, nespereiras, limoeiros, laranjeiras. Para lá do quintal, os telhados rubros de meia dúzia de casas. E depois, uma paisagem imensa que se estende em vale: florestas verdes como tapetes cerrados, a clareira despida de algum monte, a confusão cromática dos lugares, das vilas, iluminadas com brilho pelo sol que se vai afastando nas tuas costas. Ao fundo, impressionante como um gigante deitado, o recorte majestoso e nítido da Serra da Estrela.

Assim, iluminado à luz da tarde, vasto e silencioso como a aventura dos primeiros homens que pisaram esta terra, este é o país que te fascina.
rosas

Ficus macrophylla

Mostra de cinema experimental, Cinema 16 (de 16 mm, suponho), organizada pelo cineclube Fila K e pelo departamento de botânica da UC, para animar as noites de Sexta e Sábado neste Agosto coimbrão. A parte melhor, há que dizê-lo com toda a frontalidade, como dizia o outro, é que estas sessões são ao ar livre no Jardim Botânico, a partir das 10 da noite, ali em frente à estufa, naquele patamar onde há uma árvore enorme, cheia de raízes, que é uma ficus qualquer coisa. O pessoal senta-se nos degraus da escada de pedra que sobe para o patamar onde está a estufa, ao cimo da escada está a máquina, e o ecrã fica de costas para o jardim italiano, aquele todo desenhado, lá em baixo.
Escusado dizer que o melhor da sessão é estar à noite no Botânico, e como os filmes são mudos, não se ouve outro som que não seja o do jardim (e enfim, um outro carro a acelerar na calçada, um ou outro estralejar de gargalhadas ao longe). Ou seja, das árvores. Ou seja, daquela ficus gigantesca, ali a servir de céu que nos protege. Como não havia vento, só se ouvia de vez em quando um som como se alguma coisa estivesse a estalar, o som da madeira a estalar, e o baque surdo de uns frutos (?) parecidos com bolotas, que caíam. Ansiei toda a sessão que me caísse uma dessas pequenas bolotas em cima, mas não aconteceu, mas ainda assim apanhei duas que caíram mesmo ao meu lado e trouxe-as para casa, como recordação de uma das mais fantásticas sessões de cinema onde já estive na vida.
E os filmes? Foram dois, de 10 e 35 minutos, com «pausa técnica para mudança de bobine», como se dizia no programa. O primeiro era ‘Notebooks’, de Marie Menken, e o título diz tudo, pequenos apontamentos fílmicos, ora de aspectos da natureza (botânica, claro) ora de experiências com manipulação de filme, animação, etc. O segundo filme foi ‘Messages’, de Guy Sherwin, que intercalava imagens da natureza e de fenómenos naturais com frases de crianças, retiradas de um livro de Jean Piaget ou aproveitadas a Maya, a filha do realizador que é uma das protagonistas do filme. As frases são notáveis, verdadeiras pérolas de fascinação e perplexidade, e o realizador vai usando as frases não tanto para ‘comentar’ as imagens, mas para interagir com elas, inserindo-as num determinado contexto do filme. Muito interessante. A sequência mais espectacular, na minha opinião, foi uma em que num plano fixo de uma árvore gigantesca, o realizador vai descobrindo sucessivamente as letras do alfabeto desenhadas pelos troncos e pelos ramos. Como se dizia no programa, um verdadeiro ‘alfabeto de árvores’.
Árvore foi mesmo, e como se vê, o nome e a senha desta noite especial.
Ah, estava aqui a ver o programa, e a árvore chama-se Figueira Estranguladora (Ficus macrophylla).