August 8th, 2004

rosas

farenheit 9/11 + silmido

Cheguei há bocado do Porto, onde vi dois filmes. Ah, também vi o Quaresma, no Capa Negra. É sempre um pouco decepcionante ver jogadores da bola ao vivo, perdem aquele ar forte e poderoso que têm fardados dentro da arena. Cá fora são sempre a atirar para o enfezado. Mesmo o Quaresma, que é mais matulão do que a generalidade da rapaziada da bola. Ainda estive para lhe ir dizer duas verdades acerca dos jogadores que traem os clubes que os formaram para irem jogar para os adversários, mas depois como houve esta história do Pinto da Costa despedir o treinador italiano que acabou de contratar, eu até estou numa pró-fêcêpê e tudo, e por isso achei que não valia a pena ir lá desancar no rapaz. Quanto aos filmes.

Eu não há meio de simpatizar com o Michael Moore. Quer dizer, eu até sou totalmente anti-Bush e se dependesse de mim ele sair da Casa Branca até me naturalizava americano, mas não suporto o cinema propaganda do MM. Farenheit 9/11 é um longo filme publicitário, de publicidade negativa é claro, em que o MM não se limita a apresentar um assunto sob uma perspectiva pessoal. Não, ele manipula as imagens, o que não significa que manipule os factos, mas usa as imagens para provocar determinado estado emocional no espectador e assim persuadi-lo a votar anti-Bush. Ok, já sabemos, é por uma boa causa, mas há limites para a decência e os fins não justificam os meios quando há valores e princípios, e é em nome desses valores e princípios que os combates devem ser travados. Toda as sequências com a mãe do rapaz que morre na guerra é verdadeiramente pornográfica, aquilo é obsceno de tão manipulador, de tão primário. Além disso, irrita-me, do ponto de vista cinematográfico é claro, estar a ver um filme que não foi feito para mim. Sim, o filme do MM não faz sentido aos olhos de um europeu, não traz novidades, não acrescenta nada ao debate. O filme destina-se inteiramente ao público americano, e, dentro deste, ao que vai votar nas eleições no próximo mês de Novembro. Até nisso, por ser um filme construído em função de um determinado público ‘target’, se assemelha com um filme publicitário.
Está bem que eu me diverti a ver o filme, e até achei graça às cenas em que ele mete o Bush a ridículo. Mas o facto de eu me rir com uma caricatura não significa que o desenho esteja bem feito. A maior parte das piadas do filme roçam a boçalidade. Para mim, nem faz sentido tentar analisar este filme como cinema documental. Não, MM não faz documentários, faz filmes de propaganda. E não é por eu até concordar com as suas opiniões em relação ao presidente dos EUA, que vou dizer que o filme é bom. Não é, e pronto, está tudo dito.

O outro filme visto foi uma obra inesperada, da Coreia do Sul, chamada Silmido, e que conta a história verídica de um batalhão que foi formado no final dos anos 60 na Coreia do Sul, constituído por desertores políticos da Coreia do Norte e por criminosos de delito comum, para ir a Pnongyang matar o Kim Il Sung. O problema é que, com a normalização das relações entre as duas Coreias, o grupo torna-se mais do que obsoleto, perigoso, e a ordem chega aos oficiais que treinaram os soldados, para os eliminarem. O grande interesse do filme reside não tanto na abordagem do conflito entre as duas Coreias, mas sobretudo na reflexão sobre o própria Coreia do Sul, sobre os seus traumas e os seus fantasmas, sobre as marcas dolorosas deixadas pelo regime de ditadura militar sob que viveu a metade sul do país dividido pelo paralelo 38, enquanto a metade norte vivia, e ainda vive, sob a égide do totalitarismo comunista.
Infelizmente, o filme foi produzido no seio da florescente e vibrante indústria cinematográfica sul-coreana, o que contagia o filme com as marcas do cinema de acção de pendor ‘Rambo’, e faz desviar, com muita facilidade, as atenções do espectador para as cenas de pancadaria, em detrimento de um reflexão mais séria e consequente dos temas mais interessantes do filme. Mas, pelo interesse destes temas, e pela ocasião rara de ver cinema de paragens mais raras nas salas portuguesas, vale muito a pena ir ver este filme.

Só para dizer que ontem à noite fui à Figueira e estive numa coisa que se chama Figueira Folia que, basicamente, é uma festa brasileira, com samba, trio eléctrico, caipirinhas, Brahma e outras especialidades tropicais. Nunca tinha visto tantos brasileiros juntos em Portugal, havia alturas em que só se ouvia falar brasileiro. Ó pá, tanto gajo bom, caraças, aqueles meninos todos descascados com os corpinhos malhados ali a dar à anquinha e a mexer os bracinhos. Além disso, fez-me ter saudades do Rio, do ‘ambiente’ das ruas, e dos amigos brasileiros.
Também fui ao piano bar do Casino que é a coisa mais deliciosamente ‘demodé’ – variante classe A decadente, que se pode imaginar. As bicas custam um euro. Olaré. Mas vá lá, estava lá um mulato que cantou o ‘borbujas de amor’ e ficou tudo perdoado.
rosas

a aldeia e o homem mais poderoso do mundo

Passei a tarde na casa de uma amiga numa aldeia que fica ali ao pé do Rabaçal. Quer dizer, o Rabaçal já de si é uma aldeia que fica ali ao pé de Condeixa-a-Nova, quem vai a caminho de Penela. Quer dizer, Condeixa-a-Nova já de si é uma aldeia que fica ali ao pé de Coimbra, quem vai a caminho de Lisboa. Quer dizer, Coimbra já de si é uma aldeia que fica ali ao pé de Lisboa, quem vai a caminho de Madrid. Quer dizer, Lisboa já de si é uma aldeia que fica ali ao pé de Madrid, quem vai a caminho de Bruxelas.

Foi uma tarde fabulosa. Éramos quatro e a conversa foi sempre muita, muito variada, muito boa e muito animada. Além disso a casa da minha amiga é muito engraçada, uma casa antiga que foi restaurada por ela, assim cheia daqueles toques femininos de bon chic bon genre, das pessoas que são ao mesmo tempo simples e sofisticadas. Outro dos ‘encantos da merenda’, que foi um almoço com entradas de presunto, melão e queijo fresco, posta mirandesa em molho de azeite e vinagre, pudim de abade de priscos e muitos queijos (eu ao longo da tarde dediquei-me com afinco e bons resultados a um queijo do Rabaçal), dizia eu que outro dos encantos da casa, é o jardim, que é suficientemente grande para ter relvado, árvores, canteiros, cisterna e churrasco, mas ainda assim suficientemente pequeno para ser aconchegado e íntimo. Uma delícia, abrilhantada por uma nogueira velhíssima, nespereiras, limoeiro, uma pereira, e duas magnólias lindas, uma de folha caduca e outra de folha perene. Enfim, apaixonei-me pelo jardim da minha amiga.

Como disse a conversa foi muita e variada. Falou-se da vida alheia, analisou-se o momento político, ou seja, dissemos mal do Santana Lopes e eu aproveitei para dizer mal do Sampaio o que não caiu bem às senhoras, e tal.

A propósito desta conversa, regresso aqui ao Farhenheit 9/11, para ressalvar os dois únicos momentos do filme de que verdadeiramente gostei, ambos logo no início do filme.
Aliás, o primeiro tem a ver com a forma como o 11 de Setembro é referido no filme, com subtileza e bom-gosto. Mas o ponto que eu queria aqui destacar nem tem bem a ver com o filme, mas a verdade é que ele me ocorreu quando estava a ver essa sequência. Tem a ver com o facto de as imagens relacionadas com o 11 de Setembro não sofrerem o efeito de desgaste próprio da repetição. Quando algum acontecimento é muito chocante, nós, os espectadores, reagimos com um misto de horror e fascínio. As imagens estão sempre no limite daquilo que nós suportamos olhar, mas não resistimos a olhá-las. No entanto, à medida que essas imagens são repetidas, esse efeito de choque como que se vai atenuando, há uma ‘dessensibilização’ à medida que vamos integrando esse fenómeno, que há pouco nos parecia do domínio do impossível, na nossa capacidade de representar o real, no nosso leque das infinitas alternativas em que o real se pode materializar à nossa frente. Ora, as imagens do 11 de Setembro fogem por completo a esse efeito de rotinização. Sempre que as vemos, repete-se o horror, ou melhor, repete-se a incredulidade. Olhamos essas imagens sempre com a estupefacção de quem está a ver o impossível, aquele sentimento de que «isto não está a acontecer». Suponho que isso acontece porque o tipo de atentado que foi perpetrado rasga de uma forma radicalmente absoluta a noção intrínseca que todos temos adquirida do que é o quotidiano urbano estruturado. Faz parte do impensável a possibilidade de um avião de passageiros comercial (quanto mais dois, separados por poucos minutos) entrar por um arranha-céus dentro a uma hora em que a cidade está a funcionar em plena velocidade de cruzeiro, ou seja, em que os aviões cheios de passageiros estão a levantar voo de aeroportos de movimento ininterrupto e os arranha-céus estão cheios de pessoas a trabalhar nos seus empregos. É esta inominável ruptura do quotidiano, da estrutura do dia-a-dia, da estrutura afinal das nossas vidas, que torna este acontecimento, mesmo que a história e as imagens nos garantam que ele já aconteceu uma vez, do domínio do impossível.

A outra reflexão acerca do filme tem a ver com as espantosas imagens do Bush quando está a visitar uma escola primária na Florida (de todos os estados, claro, logologo esse!) e lhe vêm segredar ao ouvido o que está a acontecer em Nova Iorque e outras cidades. São 7 longos minutos em que Bush se revela: pega num livro infantil (‘o pequeno carneiro’, acho eu) e começa a folheá-lo como única forma de reagir ao imenso e insuportável vazio que se apodera dele. O olhar, a expressão do rosto, são uma coisa impossível de descrever, ao mesmo tempo vazio, perdido, sem ninguém que lhe diga o que fazer, como reagir, que botões premir. Claro que o Michael Moore tinha de falar por cima das imagens e começa a especular se o Bush estará a pensar em qual dos ‘amiguinhos’ dele fez a asneira. Até nisto o MM é um bocado boçal. Não se apercebeu, ou não se quis aperceber, que se o Bush estivesse a pensar alguma coisa, isso já era um avanço. Mas não, o que essas imagens têm de fascinante é precisamente ver o homem mais poderoso do planeta num vazio absoluto, os olhinhos com aquele desespero que eu presumo ser o de um animal que caiu numa ratoeira mortal: ele não faz a mínima ideia do que lhe aconteceu, não é capaz, por definição, de racionalizar sobre os eventos que se abateram sobre ele, mas sabe, e aí reside o seu desespero, que a sua vida está presa por um fio. Nesses sete admiráveis minutos, foi assim que o Bush esteve: suspenso no vazio, a mirar a sua própria morte olhos nos olhos. Até que, provavelmente, um assessor qualquer o veio resgatar à armadilha, deu-lhe alguma informação, outro terá vindo dizer-lhe que era preciso fazer isto ou aquilo, que o air force 1 estava à espera, ou qualquer coisa do género. Nesse momento, o relógio recomeçou a trabalhar. A vida de Bush, a vida de todos nós, a vida do mundo, retomou a sua marcha.