July 31st, 2004

rosas

tomorrow is another day

É uma das frases mais célebres na história do cinema.
No final de Gone With The Wind, Scarlett O’Hara aparentemente perdeu tudo. A sua casa, Tara, foi pilhada. O seu país, o sul confederado dos Estados Unidos, vencido e destruído. O filho que trazia no ventre, morto num acidente. E Rhett, o homem desprezível que ela aprendeu a amar com violência e paixão, abandona-a, e quando ela lhe suplica que a leve com ele, perguntando o que vai ser dela sem ele, responde, antes de virar as costas: “Frankly, my dear, I don’t give a damn”.
Mas restam a Scarlett ainda duas coisas: a terra de Tara, o solo rico e fértil das plantações do sul, e a sua indómita vontade de viver e de recuperar o amor da sua vida. Então, num clima de devastação que parecia ser inexorável, Scarlett pronuncia as famosas palavras: “Tara!...Home. I'll go home, and I'll think of some way to get him back! After all, tomorrow is another day!”

Lembrei-me deste final arrebatador de um dos filmes mais famosos da história do cinema, a propósito de ‘Onde Andará Dulce Veiga?’, o romance (‘um romance B’, como lhe chamou o autor) de Caio Fernando de Abreu, que acabei de ler há poucos dias. Porque a literatura de Caio tem, tal como a Scarlett O’Hara, esse optimismo resiliente que acredita sempre que, apesar de tudo, ‘tomorrow is another day’.

Neste momento, já li seis livros de Caio. Além de ‘Dulce Veiga’, li as crónicas de ‘Pequenas Epifanias’, e os contos e novelas de ‘Pedras de Calcutá’, o soberbo ‘Os Dragões Não Conhecem O Paraíso’, que contém algumas das histórias mais comoventes que eu já li, ‘Triângulo das Águas’ e ‘Estranhos Estrangeiros’. Ou seja, li todos os livros que o Saint-Clair me emprestou. Tenho ainda dois livros dele para ler, que foram oferta.

E em todos os livros, em todos os contos, mas de uma forma fulgurante em ‘Dulce Veiga’, esse comovido e comovente amor pela vida, que permite acreditar sempre no dia seguinte, mesmo quando se sabe, ou sobretudo quando se sabe, que a doença ou a guerra ou a falta de amor, anunciam a chegada de uma noite que parece interminável.
rosas

águas das fontes calai

Vi há pouco, ao serão da rtp1, um programa do João Braga, dedicado ao fado de Coimbra, chame-se lá ele como se chamar, questão que muito parecia preocupar o Braga e os seus convidados. Não tenho opinião, por mim podem chamar ao fado de Coimbra aquilo que quiserem.
Bem, a verdade é que tenho de confessar uma certa embirração, gratuita e um pouco infantil, como devem ser as verdadeiras embirrações, em relação ao fado de Coimbra. Coitado, que nem tem culpa nenhuma, eu acho é que tenho uma embirração razoável em relação à academia de Coimbra, e o fado leva por tabela.
E a verdade também é que gosto muito das guitarradas de Coimbra, o que nem é de estranhar, porque gosto muito da guitarra portuguesa.
Mas hoje ao ver o programa percebi porque é que tenho uma certa embirração em relação ao fado de Coimbra. É que, na maior parte dos casos, o fado canta-se em Coimbra para honrar uma tradição, para fazer seguir a charanga, porque faz parte do programa. E canta-se muito pouco por verdadeiro sentimento.
No programa do Braga apareceu um rapaz a cantar, muito bem note-se, a Balada de Outono, do José Afonso. Às tantas apercebo-me que estando o rapaz a cantar irrepreensivelmente, a verdade é que não está a ligar nenhuma ao que está a cantar. Podia estar a cantar aquelas palavras como podia estar a cantar a lista das compras do supermercado ou as instruções de uso da máquina de lavar. Não havia nada naquela prestação, nem na voz, nem na entoação, nem na dicção, que era boa, que nos dissesse que o rapaz acreditava verdadeiramente naquilo que estava a dizer.
E o que ele estava a dizer era tremendo, era a coisa mais terrível que se pode dizer:

"Águas
E pedras do rio
Meu sono vazio
Não vão
Acordar
Águas
Das fontes
calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Águas
Do rio correndo
Poentes morrendo
P'rás bandas do mar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar"


Caraças, não se pode cantar isto de ânimo leve, com um sorriso nos lábios. Quando eu ouço o Camané a cantar o Fado da Sina, não é só, ou não é sobretudo, ele estar a cantar bem ou mal, é que durante aqueles minutos efémeros que dura a canção, eu acredito em tudo o que ele me está a dizer, há ali uma verdade, que está de todo ausente quando o tal cantor de Coimbra cantava as trágicas e enegrecidas palavras do José Afonso.
Não sei se é por o fado de Coimbra estar um pouco gasto com uma certa colagem a uma tradição um pouco folclórica demais, muito a atirar para o bilhete postal, aquela coisa de não haver jantar ou congresso ou sarau que não meta a sua sessão de fadinhos. Mas a verdade é que há na maneira como se interpreta o fado em Coimbra uma certa leveza festiva, folclórica, que retira emoção e sentimento à canção em favor de uma certa solenidade que resulta um pouco frívola e artificial.
Ora esguardai: aquilo que o tipo está a dizer é que não volta a cantar! Caramba, algo de muito sério se deve ter passado na vida dele, para as águas das fontes se calarem e as ribeiras chorarem. O mínimo que se exige a quem cante estas palavras, é que passe para quem ouve uma tremenda inquietude e uma vontade febril de perceber porque é que ele não volta a cantar. No limite, aquilo que se exige a quem cante estas palavras, é conseguir fazer com que o ouvinte se emocione ao fazer suas as palavras da canção, e se turvem os olhos com as suas próprias, íntimas e profundas razões para não voltar a cantar.
rosas

sentido obrigatório

Estupenda notícia: 'Nunca Mais é Sábado', a Antologia de Poesia Moçambicana, organizada (e prefaciada) por Nelson Saúte e editada pela Dom Quixote, está finalmente à venda. E digo finalmente porque desde o ano passado que a obra se anuncia (pela primeira vez, no blog textos da contracapa, de Nelson de Matos). Pelos vistos, e pela explicação dada num post-scriptum ao Prefácio, a demora teve a ver com as necessárias autorizações de publicação; ficamos também a saber que houve autores que não consentiram a sua inclusão na antologia. Para além do gozo de ver divulgada, e publicada, muita poesia moçambicana, dá-me também um prazer especial a Antologia conter muitos poetas que eu não conhecia, alguns até de quem nem sequer tinha ouvido falar.