July 11th, 2004

rosas

(no subject)

"Dependendo do humor de cada dia, podia soar folclórico, bizarro, sórdido, deprimente. Às vezes Pedro Almodóvar, às vezes Manuel Puig. Mas naquela noite eu estava exausto demais para achar qualquer coisa.
Parecia pior, parecia real."


- Caio Fernando Abreu, Onde andará Dulce Veiga?
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pintasilgo

Não votei em Maria de Lurdes Pintasilgo. Quando ela foi candidata a Presidente da República, em 1986, eu andava demasiado ocupado, ou distraído, com um dos grandes combates entre a esquerda e a direita na política portuguesa. Não estou propriamente arrependido dessa distracção, porquanto, na minha memória, essa foi a última vez que eu me empolguei verdadeiramente com um combate político. Puramente político. Estávamos divididos não porque tivéssemos interesses diferentes ou conflituantes, mas porque, como no verso de Reinaldo Ferreira, «tudo era certo, simples, claro».
Foi uma eleição fantástica essa. Primeiro, porque a esquerda estava dividida, face a uma direita unida. Por uma lado havia uma luta fratricida: Soares e Salgado Zenha, que tinham sido maiores amigos e companheiros de luta, zangaram-se ‘de morte’ e protagonizaram cada um a sua candidatura, Soares com o apoio do PS, Zenha apoiado pelo PRD, um partido feito à medida de Eanes, e do PCP. À direita, apoiado pelo PSD e pelo CDS, Freitas do Amaral. E fora deste esquema dos partidos, uma outra candidatura na área da esquerda, a de Pintasilgo. O país estava dividido, mas uma das metades também estava dividida. Perante este cenário, perante a possibilidade de pela primeira vez a direita, assumida como tal, ganhar o pleno das eleições, empolguei-me naquilo que me pareceu ser uma luta clara entre dois campos, entre os dois lados. Também ajudou eu na altura ter um grande amigo que era ‘freitista’ e assim tínhamos entre nós o nosso combate privativo.
Mas engano-me quando digo que na altura estava distraído. Porque sempre tive a consciência de que a candidatura mais bonita dessas eleições era a da Engª Maria de Lurdes Pintasilgo. Invejava o ar feliz dos meus amigos que se envolveram na campanha. Costuma-se dizer que o 25 de Abril acabou no 25 de Novembro. Acabou, naturalmente, enquanto sonho, enquanto utopia. Mas muito provavelmente, esse 25 de Abril só acabou nessa noite em que se contaram votos e a candidatura de Pintasilgo, previsivelmente, ficou em último lugar. Porque essa candidatura foi provavelmente o último momento em que, como no verso de Sophia que Vieira da Silva imortalizou num cartaz, «a poesia está na rua».