July 5th, 2004

rosas

recado para belém

Agora que podemos regressar com toda a tranquilidade à crise política, eu tenho um recado para o Presidente Sampaio, alguém que o conheça faça o favor de o transmitir.
Como o Presidente Sampaio sabe, metade do país vai ficar descontente com a decisão que tomar, de marcar eleições antecipadas ou de nomear o Santana Lopes primeiro-ministro. Ora então, e já que o Presidente Sampaio não se vai poder recandidatar a outro mandato, podia fazer a gentileza, mostrando até uma gratidão que só lhe ficava bem, de tomar a decisão que agradasse à metade do país que o elegeu. Era só. Obrigado.
rosas

conto

A ARCA

Agora já não tenho medo.
Agora já não tenho vergonha.
Agora já não há o teu cheiro a rondar a minha pele. Aprisionada nesta cela, sinto-me mais livre do que quando tinha de passar à porta da nossa casa e, de lá de dentro, chegava-me o teu cheiro, como um farol apodrecido.

Agora também já me libertei do corpo dele. Era estreita a corrente que me prendia a ele. Já deixei de pensar nas suas mãos quando me cingiam a cintura. Já não penso na sua juventude, na ilusão de que, no seu desejo, eu poderia viver outra vez.
Era estreita a corrente que me prendia, e dolorosa. Entre nós, entre mim e ele, estiveste sempre tu, os teus
despojos, aquilo que restava de ti depois do crime.

Quando veio a guarda e me levou, a noite acabou. Vi-o a ser empurrado para dentro de outro carro e foi nesse momento que o abandonei, deixei-o ir, pensei “já não sou tua”, agora estou finalmente livre de vós, dele e de ti, das mortes que me pesam, do crime horrendo. Do cheiro da arca frigorífica, que me envenenava os dias, e estendia a sua podridão às paredes daquela casa que tinha sido nossa.

Não sei durante quanto tempo eu atravessei as ruas e, todas as semanas, fui à nossa casa, por entre a lâmina dos olhares, por entre os guinchos dos rumores. Terão sido meses, ou anos. Quando na guarda me perguntaram quando é que tu desapareceste, eu não soube responder. Para mim não tinhas desaparecido, estavas ali, repartido em pedaços, vivo no teu cheio nauseabundo.
Todas as semanas eu chegava à casa, à que tinha sido a nossa casa, demorava-me umas horas nas limpezas e saía, já escuro, sem ter ideia do tempo, dos acontecimentos. Era um vazio baço, esse tempo que eu passava perto de ti. Só uma vez, que me lembre, entrei na dispensa onde estava a arca, mas todas as semanas era como se te matasse outra vez, por entre uma nuvem de chumbo putrefacta, quando saía de casa e deixava para trás a tua lembrança a escorrer sangue.

Na parede da cela, a minha vida são dois traços grossos e rudes. O primeiro foram os anos ao teu lado, as humilhações, a indiferença, a rotina do teu hálito azedo. O meu corpo foi o móbil do teu roubo, e cansaste-te dele assim que te passou o fulgor do saque. O outro traço foi o tempo depois do crime. O corpo dele foi o móbil do meu roubo, que pôs um termo à secura do meu corpo feito cacto. Mas eu não me cansei dele. Cansei-me outra vez de ti, de tu pesares, nauseabundo, cada segundo da minha consciência. Cansei-me de nunca mais poder passar junto à nossa casa sem sentir o teu cheiro, sem pensar no inferno gelado da arca frigorífica, e como o teu corpo sem túmulo escolhera habitar no corpo ainda, afinal, vivo.

Um dia matei-te. Adormeci-te com os comprimidos que costumavas tomar, estrangulei-te com uma corda e asfixiei-te com uma almofada. Tudo com as minhas mãos. Matei o teu corpo e matei o teu peso sombrio e insuportável na minha vida. Depois chamei-o, precisava que me ajudasse a fazer-te desaparecer. Ele veio, trémulo e receoso. Fingi que chorei a tua ausência. Chamei a guarda. Fingi que chorei a tua ausência. A pena e o testemunho das vizinhas fizeram o resto.
E então, tu começaste a regressar, devagar. Instalaste-te no cheiro que se desprendia da arca frigorífica, e no meu remorso. Ele era feliz, afastado o receio da tua vingança, e todos acharam natural quando eu fui viver para casa dele. Achavam natural que eu não ficasse sozinha. Ou então achavam justo o teu desaparecimento. Eu era feliz, por ele, e era feliz nas horas em que pousava a cabeça no seu peito. Mas havia as horas em que passava contigo, as horas arrastadas em que, dentro da nossa casa, eu parecia estar fora do tempo, todas as horas em que tu pesavas no meu peito, em que o teu cheiro impregnava todo o ar que eu respirava.

Até que a guarda chegou novamente, sem que ninguém a tivesse chamado desta vez. Não sei porque é que eles voltaram, uma denúncia, os rumores, a inveja das vizinhas. Mas eu abri-lhes a porta como se tivesse sido eu a chamá-los. Sabia, pelo toque leve na porta, ao que vinham. Adivinhei-lhes as palavras do mandato. Sentei-me no banco de trás do carro, que arrancou a tempo de o ver a ser levado, e de te ver, a ti, finalmente, a saíres da minha vida, leve como a espuma, como a neblina que se esfuma ao sol da manhã.
Agora, finalmente, já não tenho vergonha.
Agora já não tenho medo.