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nunca mais a tua face será pura
rosas
innersmile
O dia não correu mal, teve até coisas bonitas, algumas a que voltarei aqui, depois. Mas no espaço de poucas horas, duas notícias profundamente tristes. E tristes porque, em ambos os casos, o mundo em que vivemos ficou menos belo, e por isso mais feio, mais árido.

A primeira soube através aqui do livejournal. Morreu o Marlon Brando. O Marlon Brando, à conta dele, tem as duas melhores interpretações de sempre do cinema, nunca nenhum actor esteve tão belo e tão perfeito como ele nesses dois papeis: o de Stanley em ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’ e o de Dom Corleone, em ‘O Padrinho’. Além disso, Marlon Brando era o epítome da beleza. Uma beleza tão transcendente, tão pura, tão radicalmente animal e humana e divina, que era quase insuportável. Falo, naturalmente, do Brando novo. Mas era uma beleza tão profunda que não desapareceu mesmo quando o Brando envelheceu. Pressentia-se essa beleza, palpitava sob aquele corpo imenso e disforme, irradiava sob as rugas, a pele envelhecida, os cabelos brancos. Como acontece a todos os humanos tocados pelo sopro divino, a vida de Brando foi sublime e patética, a glória sempre se rodeou da tragédia, o prazer conviveu com o desastre. São pessoas que não cabem na vida, que a extravasam.
Naturalmente, não consigo tocar com precisão nas razões porque sou homossexual. Tenho indícios, sinais, marcas, cicatrizes. Mas de alguma forma, desde a adolescência, desde que eu me recordo como ser dotado de sexualidade, que o Brando sempre exerceu um fortíssimo sortilégio sobre mim, um fascínio que é tanto intelectual como erótico, estético e sensual. E sinto que de alguma forma a minha sexualidade está ligada a esse fascínio, a essa sentimento quase doloroso de olhar tanta beleza. Não consigo ver o ‘Eléctrico Chamado Desejo’ sem me emocionar, sem me sentir, como a Blanche DuBois, aterrado e fascinado pela fisicalidade de Stanley, atraído e intimidado pela sua, como lhe chamar: masculinidade?, virilidade?, sem sentir que estou a ser atraído para um lugar impossível.

Poucas horas depois, estou a ver o noticiário, passam a notícia da morte de Brando e logo a seguir o locutor de serviço anuncia, com uma sem-cerimónia, com uma quase indiferença que senti obscena, a morte de Sophia de Mello Breyner Andressen. Talvez o tolo não faça a mínima ideia, mas acabou de anunciar a morte de um dos maiores escritores portugueses do século XX, e da história da literatura de língua portuguesa. Sophia não era só nome de poeta, era também, é ainda e sempre será, sinónimo de algumas das palavras mais belas, mais profundas e mais rigorosas, que definiram algumas das coisas essenciais e fundamentais da nossa condição de país, daquilo que nós somos, daquilo que constitui a nossa ancestralidade, a nossa cultura. Como todos os grandes poetas, Sophia era universal, e por isso quanto mais anunciava aquilo que em nós, portugueses, era essencial, mais convocava, para essa matriz, o que aparentemente nos era longínquo, as lendas e os mitos nórdicos, o chamamento profundo do mediterrâneo, nomeadamente da Grécia. Tinha fascínios, Sophia, e desses fascínios lia a nossa identidade. Poucos poetas cantaram, como Sophia, a incomensurável alegria da liberdade que Abril nos trouxe, sem, nesse passo, perder o mínimo rigor da escrita, sem cair em poetadas demagógicas. Até isso, essa crónica dos nossos dias do esplendor mais luminoso, lhe devemos. Quando um dia no futuro distante figurarmos na história, há-de ser porque fomos contemporâneos de uma poeta como Sophia.
É um dia muito triste para Portugal. Um dia muito triste. Portugal perdeu hoje uma das suas mais fundamentais vozes. Uma voz que brilha lá em cima, no degrau mais alto, ao lado daqueles que todos consideramos os melhores escritores de sempre. E é uma perda verdadeiramente irreparável. Eu sei que isto soa a lugar comum, mas por vezes o lugar comum é mesmo o único lugar onde encontramos a possibilidade da expressão. Portugal é hoje, verdadeiramente, um país mais pobre.
Sophia foi, para além de tudo, uma escritora profícua e abundante. Escreveu poesia, muita e de uma qualidade superior. Mas escreveu prosa, também, os seus Contos Exemplares são isso mesmo: exemplares. Escreveu para crianças, aliás é autora de dois ou três dos mais fascinantes livros infantis que conheço. Procuro um poema para aqui pôr. Regresso a um poema que já pus, há muito tempo, há muitos meses, ou anos, no innersmile. Porque é um dos poemas mais belos, e terrivelmente belos, que conheço.

A MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GÂNDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais
A tua face será pura, limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais servirei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.