July 1st, 2004

rosas

eureka

Falando de coisas sérias. Tenho estado aqui muito preocupado com esta crise política, ainda que por vezes pareça que só eu é que estou preocupado. Mas enfim, a minha grande preocupação é: se o Durão foi para Bruxelas e o Santana vai para S. Bento, quem é que vai para Presidente da Câmara de Lisboa. Ora, estive aqui a matutar e acho que já tenho uma solução: por mim, vai aquela assessora do Santana que aqui há tempos mandou um convite a um escritor qualquer que já tinha morrido há cem anos.
rosas

liderança

A selecção nacional está apurada, creio que pela primeira vez, para a final de uma competição internacional de futebol. Por entre a euforia e o contentamento, há espaço para outras reflexões, até extra futebol.
Um dos inegáveis factores de sucesso da equipa nacional neste europeu é o treinador Scolari. Independentemente de até se poder dizer que ‘atrás de fraca moiteira pode estar um bom coelho’, dada a forma como decorreram os jogos de preparação, e independentemente da qualidade dos jogadores, não se pode negar que Scolari trouxe para esta jornada o elemento decisivo e diferenciador.
E, na minha opinião, aquilo que Scolari trouxe de novo à selecção, foi, pura e simplesmente, liderança. Leadership! Não sei, porque não percebo nada do assunto, se o treinador trouxe para a selecção revolucionários métodos de trabalho, tácticas ou estratégias ganhadoras, se tem alguma arma secreta, ou mesmo se a nossa senhora de caravaggio existe e está com a selecção, ou se tudo não passa de paleio aprendido nos lugares comuns dos livros de auto-ajuda. O que sei é que o Scolari conseguiu impor e conseguiu impor-se. Conseguiu transformar um grupo de excelentes futebolistas (como de resto já têm demonstrado noutras competições anteriores) numa equipa ganhadora, motivada e determinada.
E o êxito de Scolari foi de tal monta, que ele, como se sabe, liderou não apenas a equipa de futebol, mas todo o país, transformou todo o país numa equipa nacional. Foi ele que apelou à cena das bandeiras. Foi ele que falou com calma e com paixão da equipa e dos jogadores. Foi ele que agradeceu comovido o apoio, sabendo que essa emoção ia gerar ainda mais apoio. Usou tácticas de liderança de grupos, como por exemplo agradecer a todos, mas destacar de vez em quando um grupo, como os pescadores não sei das quantas. Ou veja-se a forma inteligentíssima como ele lidou com o ‘caso’ do amuo do Figo no jogo com a Inglaterra, não o perdendo para a competição, como ficou demonstrado no jogo com a Holanda.
A outra coisa que o Scolari provou é que o que os portugueses precisam é de liderança, é isso que nos falta. Costumamos muitas vezes elogiar o comportamento dos trabalhadores portugueses no estrangeiro. Sabemos que há projectos, como foi por exemplo a expo 98, em que temos tanto sucesso como os melhores. Ou seja, os portugueses sempre que são bem liderados respondem bem, com determinação e com sucesso. Foi isso que faltou à selecção portuguesa noutras ocasiões anteriores, em que os treinadores se perderam nos fadinhos da nossa emotividade. É isso que nos perde, como país, enquanto andamos à deriva entre a depressão de quem não acredita no futuro e a euforia de quem ganha um desafio de futebol. Aliás, o Scolari não só tem repetidamente afirmado que o futebol não é tudo na vida (ele, para quem provavelmente o futebol representa muito) , como tenta desvalorizar a onda de euforia ao mesmo tempo que não pára de resgatar o apoio de todos os portugueses à selecção.
Esta é uma lição exemplar para todos nós, e em particular para os nossos dirigentes. Que, se há coisa de que se têm demitido de fazer, é de liderar o país e os portugueses. Por isso, pela lição que nos deu, pelo que nos ensinou, mais do que pelas alegrias efémeras de ganhar um jogo ou mesmo um campeonato, devemos estar agradecidos ao jeito calmo e bonacheirão do brasileiro, às suas irritações, ao namoro com os media, ao humor por vezes um pouco tosco, às lágrimas ao canto do olho, aos saltos no banco, às correntes de mãozinha dada ou todos abraçadinhos, à teimosia.
Obrigado Sr. Scolari.