June 28th, 2004

rosas

agora o que bebem os meus olhos

Agora o que bebem os meus olhos
e a água única que os mareja vem de dentro
quando tu na memória te desfazes
devagar
O que faço às vagas mãos
que cegas tacteiam invisíveis fios que
se soltam das árvores como raízes
A pele sobre cujos poros
sibilou arrepiado o teu ar quente e húmido
Por que sombras me perco agora
sem rumo e sem regresso

Haverá uma felicidade alheada talvez
que desce tronco a tronco a barreira
até tocar a água da baía
Um sentido qualquer que

Mas hoje de bruços sobre
este plúmbeo quotidiano de ausências
para ti só tenho lágrimas
rosas

a golpada

Eu bem digo que o único tipo do governo com tomates é a ministra Manuela Ferreira Leite. Depois de aqui há semanas se ter voltado para o ministro da saúde e lhe ter dito, com ar de reprimenda, 'o sr. ministro está-se a exceder', agora pôs os pés à parede e vociferou que o que o Durão (o chefe do governo de que ela faz parte, note-se) e o Santana Lopes estão a fazer é um golpe de estado! E não está sozinha nestes protestos, nem no partido (Marcelo e Pacheco) nem no governo (‘ganda’ Marques Mendes).
Eu gosto do PSD, apesar de não ser eleitor do partido. Gosto do facto de ser um partido liberal, um partido de poder, um partido em que há pessoas e ideologias e convicções muito diversas e até contraditórias, um partido onde num momento anda tudo à tareia e no momento seguinte está tudo unido em volta de um projecto ou de um líder vencedor. Claro que também há coisas de que detesto no PSD, a principal delas é a arrogância com que os laranjinhas locais tomam de assalto o poder de cada vez que o partido está no governo, e o exercem com ignorância e sobranceria.
É por isso, por o PSD ser um partido pluralista, progressista e reformador, que choca esta santa aliança entre os beatos do totalitarismo arrependido e os meninos nazis, que não olha a meios para impor as suas estratégias da aranha. Naturalmente que me agrada a perspectiva de um português ser presidente da CE, mais não seja porque isso ajuda a tornar o nosso país menos periférico e mais protagonista. E creio que ninguém, legitimamente, poderia pedir ao Durão que sacrificasse a possibilidade de exercer um cargo internacional de inegável prestígio e intervenção. Mas o que já é intolerável é que se queira resolver a situação interna através de um golpe palaciano, como se isto fosse uma quintinha em que bastasse substituir um quinteiro por outro. Não sei se a solução passará necessariamente por eleições antecipadas. Eu acho que devia passar, para salvaguardar a legitimidade democrático do próximo governo, caso em que deveria ser nomeado um primeiro-ministro e um governo de gestão, de iniciativa presidencial, que preparasse as eleições e assegurasse a governação até às eleições (sim, porque ao contrário do que aconteceu quando o Guterres se demitiu, ele ficou a assegurar o governo, enquanto que agora o Durão é suposto ir já lá para Bruxelas e deixar de imediato de ser primeiro-ministro). Mas mesmo que a solução não passe pela convocação de eleições antecipadas, tem de haver uma forma constitucional e democrática de legitimar um novo governo. Que não pode, como é óbvio, passar por uma converseta de amigalhaços.
Agora, num plano mais pessoal, não percebo como é que se pode falar a sério na possibilidade de o Santana Lopes ser primeiro-ministro. Ele não tem credibilidade, não tem visão, não tem experiência, não tem curriculum. É um playboy que se dedica à política porque, muito provavelmente, e entre outras razões, ganha bem sem ter de trabalhar. É influente no partido porque é um basista que distribui benesses aos amigos que o apoiam, e porque há muito tempo que o faz, e a tempo inteiro, enquanto os outros senhores do partido, quando não estão na mó de cima, abrandam a vida partidária porque têm os seus empregos onde trabalham. Mas nem por isso o Partido confia muito nele, como se tem visto sempre que se candidata nos congressos partidários. Além disso, é um populista que serve do seu pseudo charme para ganhar eleições, apesar de não deixar obra feita pelos sítios onde tem passado. Aliás, e tirando a câmara da Figueira, não me lembro de um outro cargo que ele tenha desempenhado até ao termo do mandato.

Em tempo:
Estava eu afanosamente à procura do link no Público para as declarações da Ferreira Leite, quando vi esta notícia: o governo espanhol prepara uma iniciativa legislativa para Setembro com o objectivo de possibilitar os casamentos entre homossexuais no início do próximo ano! Ainda a semana passada andámos todos felizes porque julgámos que tínhamos ganho aos espanhóis. Como se vê, não ganhámos nada, eles é que, nisto como noutras coisas, nos levam um certo avanço.
Lá vão os portugueses voltar a correr para Badajoz atrás dos caramelos.