June 26th, 2004

rosas

o cerejal e ripley's game

Fui ontem ver O Cerejal, sem dúvida um dos meus espectáculos preferidos d’ A Escola da Noite. Claro que muito do mérito é do texto de Tchekhov, que é poderoso e arrebatador, triste e divertido, frívolo e comovente. Mas o espectáculo tem outras qualidades, como sejam as interpretações: soberbas a Sílvia Brito, no papel de Liuba, e a Margarida Dias, como Ania, e que se confirma a cada peça como uma actriz extraordinária. Igualmente muito bem, Pedro Mendonça como Leonid, a Sofia Lobo, sempre a melhorar, como Varia (provavelmente a minha personagem preferida nesta encenação), e o Carlos Marques, sempre ao seu muito bom nível habitual.
A história da peça é simples: uma família tradicional é obrigada, por razões económicas, a vender a sua propriedade rural, incluindo um esplendoroso cerejal, a um dos emergentes de uma nova ordem económica. A acção da peça acompanha, em três momentos diferentes, a última temporada que a matriarca passa na propriedade, e culmina com a sua partida, depois da venda em leilão. Mas o que é extraordinário na peça é a finíssima e diáfana linha divisória que separa a frivolidade das personagens, entre os seus bailes e os seus passeios pelo jardim, dos seus pungentes dramas íntimos. Como se fosse precisamente nessa frivolidade quotidiana, leve e despreocupada, um pouco tola, que residisse o seu próprio drama, a sua maldição. É esta capacidade de nos mostrar um quotidiano que queima enquanto diverte, que não deixa de nos surpreender e comover.
A encenação cumpre, apesar de eu achar que se podia evitar um tom um pouco caricatural para que a peça por vezes resvala nos seus momentos mais leves e divertidos. Destaque para o dispositivo cénico, de autoria, e com a marca, do João Mendes Ribeiro, que cria com muita poder sugestivo os espaços da casa e do jardim, e que é muito bem aproveitado na encenação, como por exemplo na opressiva cena final da morte de Firs.

Hoje de manhã estive a ver o dvd de Ripley’s Game, o filme que Liliana Cavani fez com base no romance de Patricia Highsmith. Suponho que seja extremamente difícil adaptar as novelas do Ripley, nomeadamente porque o tom dado pela PH às histórias de Tom Ripley são muito literárias, ou seja, passam muito por códigos e processos que têm a ver com a literatura, e por outro lado porque a personagem é tão poderosa que os leitores criam o seu próprio universo ‘ripleyiano’ que nenhum adaptação cinematográfica consegue devolver.
Mas se é verdade que mais esta versão cinematográfica anda muito distante da minha própria fantasia de Tom Ripley, é inegável que a personagem vai muito bem com o John Malkovitch, que parece ter, pelo menos em certas sequências, o tom certo da personagem.