June 22nd, 2004

rosas

bem longe

O conto ‘Bem Longe de Marienbad’, de Caio Fernando de Abreu, abre com a chegada do protagonista/narrador, proveniente de Paris, a uma estação de comboios de uma cidade costeira do Norte. A estação está completamente vazia (bem, quase), e o narrador, que estava à espera que estivesse determinada pessoa à sua espera, fantasia com a hipótese de haver um estranho que segurasse uma placa com o seu nome.
Achei fantástico este princípio, porque é precisamente uma das fantasias que eu alimento, de um modo completamente involuntário. Devo ter desembarcado umas duas dezenas de vezes nos aeroportos de Londres (normalmente Heathrow, mas também em Gatwick) e, quando saio da sala de recolha de bagagens para a sala das chegadas, nunca consigo deixar de olhar, mais por ansiedade do que por simples curiosidade, para as placas que as pessoas empunham com nomes escritos. Sempre, confesso, com o desejo secreto, profundo e muito aventureiro, de que um estranho qualquer segure uma placa com o meu nome escrito.
E isso acontece em Londres e não noutras cidades porque normalmente quando chego ao aeroporto de Londres estou sozinho. Quando viajo acompanhado, nunca me assalta essa fantasia. Apenas quando estou só. Suponho que não é preciso ser um Sherlock Holmes da psicanálise, para ler nessa fantasia o assomar de um indisfarçavel desejo pelo outro, por um outro desconhecido, ou, o que no fundo vai quase dar ao mesmo, uma fuga ou uma recusa da solidão. A outro nível, dir-se-ia que esse desejo pelo desconhecido sublima não só a recusa da solidão, como sobretudo uma enorme incapacidade em estabelecer efectivos laços de afectividade com o universo das pessoas que circulam na minha esfera de contactos e uma impossibilidade de vencer a timidez quase catatónica que me impede de estabelecer contacto com estranhos.
Como seria de esperar, o protagonista do conto de Caio não encontra na estação quem ele esperava (esperava?) encontrar, nem há, tal como acontece nos aeroportos de Londres, nenhum estranho a segurar de braços esticados acima da cabeça, uma placa com o seu nome. Na estação vagueia apenas um homem, a coxear como se tivesse magoado um pé, vestindo um casaco xadrez. Esta sequência inicial do conto termina com o protagonista parado em frente à estação, ainda com a vaga esperança de que apareça quem ele procura, indeciso acerca do caminho a tomar de seguida. Eu normalmente aproveito os cinquenta e pouco minutos da viagem de metro entre o aeroporto e o centro da cidade, para deixar que a desilusão do desencontro se dissipe, e que a esperança de uma promessa esteja lá, numa placa com o meu nome escrito, que um desconhecido segure de braços esticados acima da cabeça, da próxima vez que eu desembarcar num aeroporto, longe de casa.