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(no subject)
rosas
innersmile
Um dia qualquer da semana passada, comprei o último livro do Eduardo Pitta, Metal Fundente, uma colecção de ensaios sobre escritores, sobretudo poetas. Alguns dos ensaios são muito reveladores. Gostei muito do artigo sobre Kavafis e Pessoa, acho que realça muito bem diferenças muito profundas e pronunciadas entre dois poetas de que eu gosto muito, e que foram contemporâneos. De um ponto de vista muito pessoal, acho que, nesta perspectiva enunciada no ensaio, o Kavafis sai a ganhar.
Entretanto, no Mil Folhas de ontem, no ciber-escritas, vem um destaque para a webpage do Eduardo Pitta. Vale a pena espreitar a página. Tem poemas, uma cronologia interessante, e um album de fotografias com algumas preciosidades, nomeadamente as fotos com o Rui Knopfli.
Tenho de confessar que, certamente por falha minha, a poesia do EP não me fascina. Tenho o livro da INCM que antologia a sua poesia, e sinto que me falta qualquer coisa para a compreender. Outro tanto já não acontece com o ensaio, de que sou em ‘pittaiano’ puro e duro. Ao ponto de, apesar de ter cá em casa todos os números da Ler, não resisti a comprar a Comenda de Fogo, para poder reler as suas soberbas recensões sobre livros de poemas. Graças a ele, tenho descoberto muitos poetas, e aprendido a ler poemas e poetas que já conhecia. O mesmo se passa em relação ao livro Fractura, que é um ensaio sobre a condição homossexual na literatura portuguesa. O livro faz como que um recenseamento da presença do tema da homossexualidade na literatura portuguesa, tentando de certa forma responder à questão se existe uma coisa que se possa chamar literatura gay portuguesa.
Mas de tudo o que li do Eduardo Pitta, o que mais gostei foi da brevíssima colecção de contos, Persona. São três narrativas muito curtas, que têm comum dois temas: a condição homossexual dos personagens, e o facto de as narrativas se passarem no tempo de Moçambique colonial. Se é mais ou menos evidente que os contos contêm um sopro autobiográfico, o que, na minha opinião, se destaca é a enorme capacidade narrativa dos contos e a qualidade da escrita: ágil, envolvente, leve e profunda simultaneamente. Um tesouro, que nos faz ansiar por mais prosa de Eduardo Pitta.

E já que estamos com a mão na massa, nota também para registar que estou a ler Um Crime Delicado, do escritor brasileiro Sérgio Sant’Anna. Um romance muito interessante, escrito com desenvoltura e muita erudição, que brinca com a noção de arte, de literatura, de ficção. Tudo servido com um humor muito fino. Entretanto, já comprei um volume de contos do escritor que a Cotovia editou recentemente: O Voo da Madrugada. Este livro que estou a ler faz parte do kit de literatura brasileira que o Saint-Clair me emprestou, e a minha curiosidade em o ler era tanta que me fez interromper o projecto CFA, de que, entretanto, li o Triângulo da Àgua. Gostei particularmente da última novela, 'Pela Noite', e também de Marinheiro, inspirada no Marinheiro, de Pessoa, sobretudo do primeiro capítulo.

Na sexta-feira à noite comprei dois cd’s: uma interpretação da Viagem de Inverno, de Suchbert, interpretada por Alfred Brendel (sempre ele, claro) e Dietrich Fischer-Dieskau. Curiosamente no Mil Folhas vinha artigo sobre duas edições desta peça: uma com Brendel ao piano e outra cantada por Fischer-Dieskau!
O outro disco que comprei foi o de estreia dos Scissor Sisters, e devo dizer que estou totalmente apaixonado, e não é só pelo Jake Shears. Um conjunto de canções muito divertidas e dançáveis, arranjos muito envolventes e entusiasmantes. As letras são um mimo.
De empréstimo estive a ouvir a banda sonora do La Mala Educacion, do Alberto Iglesias, que já tinha feito, entre outras, a BS do Habla Com Ella. Para além do score de Iglesias (muito sombrio, adequado ao tom negro do filme) há as habituais pérolas dos filmes do Almodóvar: duas canções de Sara Montiel (adorei o Maniquí Parisien, que no filme servia para o número de travesti do Javier Camara), e, sobretudo, uma descoberta daquelas vindas directamente da minha infância: o Cuore Matto, de Little Tony, e que eu em miúdo chamava a canção do gala-gala, por haver uma parte da letra em que o tipo parece que fala nesses lagartos. Foi emocionante, já não ouvia essa treta há mais de trinta anos, seguramente.
Importa ainda referir que uma menina linda do livejournal, a Monalise, me mandou dois cds, um do Renato Russo, Equilíbrio Distante, com versões de canções italianas, e um Acústico da Legião Urbana. O Equilíbrio Distante roda incessantemente no meu carro, e tem contribuído para eu estar cada vez mais apaixonado pela voz do Renato Russo. Mas paixão mesmo, daquela de amor, e ficarmos com ar de quem esta a sonhar acordado, a pensar em coisas tristes e boas e doces ao mesmo tempo. Se calhar devia apaixonar-me por alguém ainda vivo, para poder acordar de manhã com as canções do Russo a tocar e aquilo fazer ainda mais sentido. Sim, são canções dessas.

Quanto às actualidades, some bad news and some good news.
A má notícia é que fiquei chateado com a derrota da Inglaterra. Porra, as duas equipas de que eu gosto neste campeonato começam logo a perder. Eu estava tão contente a ver o jogo, aquele final foi mesmo um balde de água fria. Eu estava tão entusiasmado com o Becks, que a certa altura a minha sobrinha virou-se para mim e diz-me que eu gosto tanto do Beckham que devo ser gay!

As boas notícias são, por ordem:
- o PS ganhou as eleições com quarenta e quatro e tal por cento dos votos;
- o PC aguentou-se nos nove e tal por cento, apesar de não ter metido a Odete Santos, que iria sem dúvida revolucionar o Parlamento Europeu;
- o BE conseguiu eleger um eurodeputado.
Mas a melhor notícia de todas é que os partidos que apoiam o governo levaram uma banhada maior do que a dos canhões de água no outro dia. Que banho! E foi um regalo vê-los todos amarrotaditos a tentarem não perder a compostura.
Desculpaem os amigos que não partilham desta perspectiva dos resultados eleitorais. A ideia não é ofender ninguém. Mas sinceramente deploro este governo e estes governantes.