June 13th, 2004

rosas

the ladykillers

Fui ver, na sessão da meia-noite, The Ladykillers, e francamente não percebo muito bem porque é que os críticos cascam tanto no filme e porque é que ele tem sido considerado um fracasso. Eu achei-o uma comédia divertidíssima, com aquele sentido de humor muito twisted dos irmãos Coen (a propósito, é o primeiro filme em que os dois irmão assumem a realização, normalmente um aparecia como realizador, o Joel acho eu, e outro, o Ethan, como produtor), e o habitual estilo de cinema não-realista.
Como sempre acontece, os filmes dos Coen têm um ambiente cerebral, são filmes feitos, ou pelo menos aparentam ser, com muita frieza, rigor e meticulosidade. Isso nota-se de sobremaneira na forma depurada dos planos, nos diálogos construídos sem ponta de naturalismo, na montagem que parece obedecer a um plano muito detalhado e estricto, numa noção de cinefilia, em que o cinema dos Coen sempre se inseriu.

Espero que o pessoal hoje esteja a votar, e que a abstenção não seja muito elevada. Sinto-me sempre um pouco embaraçado com os níveis de abstenção crescentes das eleições, e que costuma ser terrivelmente elevado nas eleições europeias, assim tipo espero que ninguém esteja a reparar que nós nos baldamos às eleições. Talvez sejam tiques que me ficaram do facto de eu ter memória (própria e alheia) de um tempo em que não se votava. Então, fico sempre com a sensação de que, ao abstermo-nos, estamos sempre a desperdiçar alguma coisa de importante e preciosa. Como se corressemos o risco de um dia destes aparecer aí um iluminado que diga que já que não se interessam em ir votar, então mais vale não terem o direito ao voto. O direito ao voto é assim uma espécie de direito que enfraquece com a falta de uso.
Percebo que haja um desânimo muito grande em relação à nossa classe política. Mas há uma verdade insofismável, é que cada país, cada sociedade, cada momento social, tem a classe dirigente que merece, uma vez que os políticos saem todos da enorme massa social que somos nós todos. Andaram conosco na faculdade, foram nossos colegas, nossos conhecidos. Partilham, muitas vezes para nosso pesar, os nossos gostos, as nossas referências; só vi o actual primeiro-ministro duas vezes na vida, a primeira, julgo que ainda era secretário de estado dos negócios estrangeiros, estava ao pé de mim na plateia do teatro do bairro alto, a ver uma peça da Cornucópia. A segunda, já era lider do partido, mas ainda não PM, a entrar, acompanhado da família, para a sala de exposições do CCB de onde eu vinha a sair. Ou seja, este gajo de quem eu não gosto nada, e que acho que é responsável por algumas coisas infelizes que me têm acontecido pessoalmente, gosta das mesmas exposições que eu e, pasme-se, vai ver os espectáculos (quer dizer, pelo menos foi ver um) da Cornucópia.
Bem, com isto só quero dizer que se os nossos políticos são maus, é porque eles são iguais a nós, são maus como nós. Mesmo dando de barato que haverá um escol de homens bons no país que não se metem em política por terem horror ou vergonha dela. Mas então, nesse caso, se calhar têm alguma responsabilidade por se demitirem das suas obrigações. E a melhor maneira de activamente lutarmos por uma maior responsabilização da classe política, não será certamente abstermo-nos de dizer a única palavra que somos chamados a ter, a única que é só nossa e que ninguém nos pode tirar ou usar em nosso nome.