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gare de astapovo
rosas
innersmile
É também para isso que servem os poemas. Quando tudo se parece desfazer num vazio perplexo, os poemas que outros escreveram podem ser as únicas pistas, as chaves que nos permitem divisar um sentido.
Não posso dizer que a morte de Sousa Franco me consterne de modo particular ou pessoal. Nem faz sentido enfileirar no cortejo de panegíricos, em relação a uma pessoa que eu só conhecia porque foi político e governante no meu país. E tenho a impressão que, neste caso, como noutros, o choque se deve mais ao buraco que subitamente se instala em nós, do que propriamente à dor insuportável de uma ausência. Essa sentem-na aqueles que amavam o homem.
Quando andava à procura de um poema que me ajudasse a recolocar as peças, encontrei este verso: "Ela sempre chega pontualmente na hora incerta". Não conhecia o poema, e mesmo o poeta que o escreveu conheço-o sobretudo de nome, e de o ver referenciado e citado. Mas este verso, e o poema que lhe vem agarrado, se não restituem, por si, o sentido das coisas, pelo menos ajudam a apaziguar o pulsar deste vazio.

O poema é de autoria de Mário Quintana, intitula-se POEMA DA GARE DE ASTAPOVO, e é assim:

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
Sentou-se ...e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!