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em chamas
rosas
innersmile
No passado fim-de-semana, parei numa área de serviço da auto-estrada do norte, para beber um café. O crepúsculo lentíssimo demorava ainda numa ténue réstia de luz. Sentado numa mesa perto da montra, vejo um casal, de certa idade, aproximar-se. Reconheço-os quando entram: ele uma antiga vedeta do teatro popular, autor de revistas e programas de televisão, ela também actriz. Ela, a figura direita e mesmo um pouco altiva, como que a repelir o avanço do tempo, ampara-o pelo braço. O ar frágil dele, a ausência de carne por baixo das roupas, o ventre dilatado, a pele escura e baça, o cabelo ralo, não enganam. Aproximam-se devagar do balcão da cafetaria, trocam poucas palavras, dão meia volta em direcção à porta e saem. No rosto dele, uma expressão que é simultaneamente de sofrimento e enfado, que identifico tão bem. É difícil reconhecer, por detrás dessa máscara de nojo, os traços outrora vigorosos do sorriso aberto e mesmo um pouco insolente, do actor. Vejo-os, através da montra de vidro, a entrar para o carro, cujas luzes traseiras desaparecem atrás do edifício onde me encontro.
Lá fora, já noite, no parque de estacionamento da área de serviço, arde agora, em labaredas altas, a plateia imensa e vazia de um teatro.