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amor ardente
rosas
innersmile
A seguir ao jantar, sentámo-nos os três na sala, de luz apagada, a ouvir o cd que o Público editou hoje na colecção dedicada ao fado. Um disco inteiramente instrumental, em que Ricardo Rocha, acompanhado pelo lendário Paquito, recria algumas variações e guitarradas consideradas clássicas.
A abrir o disco, as Variações em Lá Menor (de Armando Freire?). Ali, na penumbra fresca da sala, aos três juntou-se o meu avô, trazido pela minha mãe. Chegou, vestindo uma camisa interior de alças, branca, tirou a guitarra da caixa, sentou-se numa cadeira, e começou a tocar.


Está instalada em Coimbra mais uma guerrinha de alecrim e manjerona. A Escola da Noite (de que eu gosto muito, e não só por razões que se prendem com a qualidade do teatro que produzem) prepara a estreia de mais um espectáculo. Ao lado da Oficina Municipal do Teatro monta-se uma feira popular. A EN invoca a impossibilidade de fazer subir à cena o espectáculo com o ruído, em fundo, dos carrinhos de choque e da barraca dos tiros, ameaçando suspender a estreia. O presidente da Junta (ele é que é o) diz que a feira popular também é cultura, e que não se pode prejudicar o divertimento de milhares por causa do prazer de meia dúzia (na qual eu me espero incluir).
A falta de juízo, de sensatez e de respeito pelo público, pelos públicos, desta polémica, é inacreditável. A feira vai estar activa para aí durante uma quinzena. Outro tanto, estará em cena a peça da EN. Qualquer dos eventos deve estar programado há meses, só pode estar, aliás. Seria pedir muito que as entidades em causa se tivessem juntado e, mais quinze menos quinze dias, chega um pouquinho para lá, dá aí um jeito, estabelecido um calendário que acomodasse os dois eventos?
Realmente, a cidade por vezes é demasiado pequena para o desmesurado tamanho dos egos provincianos...


Depois de ler alguns comentários à entrada anterior aqui no innersmile, concluo que ela própria foi um erro.
A ideia de um erro fascinante e admirável surgiu depois de ter lido, creio que num blog mas não recordo qual, um comentário a uma determinada obra arquitectónica, ou melhor, a uma obra de arte de engenharia, que na altura pareceu uma boa ideia, mas que se veio a revelar um erro desastroso. Como eu conheço a situação em causa, permiti-me pensar que apesar do erro, as suas catastróficas consequências foram, e continuam a ser, admiráveis e fascinantes. E que o erro, que o foi de um ponto de vista cultural e patrimonial, ajudou a salvar, literalmente, milhares de vidas, por ter fornecido um refúgio de paz a um povo acossado pela guerra.
Onde eu errei foi em pensar que de uma simples observação, se podia retirar um epigrama, uma lição de moral, uma filosofia de vida. Aquilo que parecia uma verdade incontestável, retirado do contexto e generalizado, ficou reduzido à triste condição de uma boutade, um dichote arrogante e espertalhaço.

brutti sporchi e cattivi
rosas
innersmile
Já devo ter escrito aqui no innersmile que muito do meu gosto e da minha cultura cinematográficas foi construído a ver cinema italiano. Falo do cinema dos grandes mestres, do Fellini, do Bertolucci, do Rosselini, do Vittorio de Sica, do Toto, que vi em sessões cineclubísticas, em finais do anos 70. Mas falo também de um género de que vi filmes em barda, a comédia italiana. Popular, muitas vezes popularucha, picante, histriónica, e que associo ao nome do actor Alberto Sordi. Em princípios dos anos 70, ainda em Moçambique, entrava nos cinema às escondidas para ver muitas dessas comédias, de que recordo, sobretudo, as saias curtas e os decotes generosos das actrizes, e o gesto dos cornos, que todos passavam os filmes a fazer. As coboiadas (na altura ainda não conhecia a expressão cinéfila western spaghetti), do Sergio Leone, do Sergio Corbucci, com o Clint Eastwood, mas também com um actor de que eu era fã incondicional, o Giuliano Gemma. Em finais de 70, até princípios de 80, viam-se ainda muitos filmes, muitas comédias, em Portugal. Os filmes do Ettore Scola, do Dino Risi, do Luigi Comencini, do Mario Monicelli, da Lina Wertmuller, do Vittorio Gassman, do Ugo Tognazzi, do Giancarlo Giannini.
Mas de todos estes nomes, e de todos esses anos a ver filmes italianos, o meu preferido sempre foi o Nino Manfredi. Vinha no Público de hoje a notícia de que Manfredi morreu, aos 83 anos. Nesses anos áureos do cinema italiano, o Nino Manfredi levava-me às salas de cinema, tentava ver todos os filmes em que ele entrava. E de todos os filmes em que ele entrou (e uma consulta ao imdb.com mostra as dezenas de filmes que fez numa carreira que se estendeu por seis décadas), aquele que para mim é verdadeiramente inesquecível é o 'Feios, Porcos e Maus', do Ettore Scola, que eu vi algumas vezes, e que gostava de rever agora para testar se esse estatuto de qualidade que ele guarda na minha memória, resistiu ao tempo.


Estava a escrever esta entrada quando, nos intervalos do concerto da Britney Spears (que achei francamente mau, e isto sem a mínima das má vontades, antes pelo contrário, eu até sou daqueles que ficam satisfeitos desde que lhe dêem uma dosesinha bem feita de show-business), vi na CNN a notícia da morte do Ronald Reagan.
Muito provavelmente, o Reagan foi dos tipos mais odiados pela esquerda europeia, e portuguesa, claro, do seu tempo. A sua pose bélica e intrépida, era uma ameaça aos 'amanhãs' que cantavam. Lembro-me, na Faculdade de Direito, como alguns dos meus colegas da jóta cê pê (já não sou do tempo da uec) tinham um ódio visceral ao homem. Mal sabia eu que essa ameaça era real, ainda que as coisas não tenham corrido exactamente como temíamos: o Papa Woytila deu um cheirinho, o Reagan empurrou com a 'guerra das estrelas', e o bloco de leste começou a ruir, por si e sem apelo nem agravo.
Nunca gostei dele, mas desde há muito tenho a convicção de que, muito provavelmente, o Reagan é o único, ou dos raros, estadistas do meu tempo que vai aparecer nos manuais de história universal daqui a muitos séculos.