June 1st, 2004

rosas

perfilados de medo

Ontem tinha na caixa do correio um panfleto assinado por uma associação tipo ‘portugal livre’ com uma imagem da nossa senhora. Não me lembro bem do texto, mas dizia qualquer coisa do género que devíamos ter compaixão e não deixar expulsar o filho da Europa. A propósito das eleições para o parlamento europeu, o panfleto vem lembrar-nos que o PE não votou favoravelmente uma proposta do partido popular europeu para incluir no texto da constituição europeia, uma menção à matriz cultural cristã da Europa. Para ficarmos elucidados, o panfleto, no verso, contém uma lista dos eurodeputados portugueses, apresentada por partidos, e a referência aos que votaram contra ou a favor, e aos que estiveram ausentes da votação. Em termos gerais, e descontadas as ausências, votaram a favor da tal menção os deputados do cds e do ppd, e votaram contra os do ps e do pcp.
Fez-me muita impressão o panfleto, porque me pareceu uma tentativa muito simplista e soez de manipular os sentimentos religiosos do povo. Estamos na época do vale-tudo, e os partidos que estão no governo, e os seus lideres, apadrinham, ou pelo menos contemporizam, com este tipo de instrumentos e manobras. Vais-se discutindo o fraco nível do debate político e está aí no discurso dos media a questão dos insultos que ocupam o lugar dos argumentos. Não consigo conceber como pode passar pela cabeça de alguém este tipo de propaganda, não percebo como as pessoas não sentem um mínimo de pudor em recorrerem a truques tão baixos, desleais e, acima de tudo, falsos e enganadores. E ainda por cima com uma linguagem muito primária, a agitar fantasmas e papões que são, em absoluto, fruto da ignorância e do medo, da superstição e da miséria.

Pode parecer que não tem nada a ver, mas na verdade tem tudo a ver. É um dos grandes poemas do Alexandre O’Neill, e intitula-se POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO:

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos


edit: já aqui tenho o ficheiro com o panfleto. se alguém quiser dar uma vista de olhos, é só dizer que eu mando para o mail.
rosas

quando um homem quiser

O Mário, que no natal já me tinha dado uma prenda, agora deu-me outra.
Tenho de admitir que, passe embora a minha imensa modéstia, dá-me um gozo bestial abrir o ficheiro e pôr-me a olhar para o ecrã, para as fotografias belíssimas, para a elegância da paginação. Em momentos piores, dá-me até para reler bocadinhos do texto.
É engraçado, porque eu já sentia que tenho um lugarzinho na casa do Mário, lá naquela casa onde moram princesas, onde se toma duche rodeado de mulheres com cinturinha de vespa e onde há um gato do país das maravilhas. Agora tenho também um lugar na outra casa dele. Epah, o gajo qualquer dia adopta-me.
rosas

anjos à minha mesa

Começou ontem, na rtp2, a série Anjos na América, acerca da qual eu tinha muitas expectativas. Lembro-me, com um complexo de culpa raiado de raiva, de a peça uqe lhe serviu de base estar em exibição em Londres e de eu não a ter ido ver. Apesar disso, sabia muito pouco acerca da obra de Tony Kushner, apenas que era uma crónica dos ‘anos da peste’, ou seja, daquele tempo, em meados dos anos oitenta, em que a sida era uma doença inevitavelmente fatal e que atingia sobretudo homossexuais e drogados.
A primeira nota é para a qualidade do texto, realmente muito bonito e, sobretudo, muito bem escrito. Do ponto de vista narrativo, às sequências factuais vão sendo intercaladas com sequências oníricas, que provocam encontros entre as personagens; estas sequências são feitas mais com recurso a um imaginário feérico e de algum excesso camp, que serve de perfeito contraponto ao naturalismo televisivo das sequências passadas ‘na vida real’. Destaque ainda para o nível muito elevado do elenco, não muito habitual em séries de televisão. No episódio de ontem, sobressaiu o desempenho de Meryl Streep como Rabi; confesso que só depois de a personagem desaparecer é que me bateu que era ela, e mal o episódio acabou rebobinei a fita para a ver de novo. Notável. O elenco central é o que vem referido no site oficial da série, mas estive a ver a ficha do imdb.com e vi lá que também entra um dos meus actores preferidos, o Simon Callow. O realizador da série é Mike Nichols, que é o realizador de The Graduate, um dos meus filmes preferidos, e, entre outros, o Working Girl, Silkwood (também com a Meryl Streep, acho eu) e o Birdcage.
Ainda é cedo para fazer grandes apreciações, até porque o episódio de ontem se destinou sobretudo a apresentar as personagens e a dispô-las no tabuleiro, mas a série parece estar à altura das melhores expectativas.