May 31st, 2004

rosas

bom povo

A recente colecção de dvds que o jornal Público editou para comemorar os 30 anos do 25 de Abril, permitiu-me ver, finalmente, um dos filmes mais míticos da história do cinema português, a obra de Rui Simões, Bom Povo Português.
O filme faz um relato, num registo que é tão documental quanto poético, de Portugal entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de Novembro de 75. Sem nunca abdicar de um comprometimento político explícito, o filme consegue, no entanto, ultrapassar essa dimensão, e transforma-se numa crónica ao mesmo tempo triste e jubilatória de um tempo em que um país pareceu viver numa suspensão, como se tivesse havido um outro tempo dentro desse tempo histórico e cronológico.
Visto a esta distância, Bom Povo Português é uma obra actual e moderna, em muitos casos antecipando um discurso e até uma prática cinematográfica que rompe os constrangimentos da narrativa clássica. Do ponto de vista do conteúdo, o filme como que documenta um período histórico, mas mais transcendente do que isso, em que um povo esteve à beira de existir, de se parecer consigo mesmo. O relato de um povo que, num determinado momento, e por um momento só, esteve mais perto de se parecer com aquilo que poderia ser. Neste sentido, só pode ser o documentário de uma utopia, desencantado e lúcido, mas poético e radical. Do ponto de vista formal, o filme usa com uma mestria pouco habitual o registo sonoro, quer musical quer de recolha de sons, e é muito suportado na trilha sonora que o realizador vai utilizando um acervo documentarial que ora acompanha ora contrasta, ora comenta ora se dissocia do que se vai ouvindo. A acompanhar o fio, não tanto dos acontecimentos mas sobretudo das pequenas explosões e epifanias que relatam a cronologia dos factos e espelham a cultura identitária de um povo, um texto muito bem escrito e dito com o tom de distante arrebatamento por José Mário Branco.
É, em suma, um filme magnífico, de uma beleza crepuscular, que nos devolve a mágoa colectiva de termos deixado instalar um vazio onde, durante um momento, palpitou um sonho.