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la mala educación + the dreamers
rosas
innersmile
Período antes da ordem do dia.
Só para registar que tenho estado a ver na Sic Radical o concerto do Peter Gabriel no Rock in Rio e, apesar de não ter feitio, paciência, idade e disposição para este tipo de eventos (não alinho em festivais, poderia dizer), tenho pena de não estar lá. Apesar de aqui na minha sala conseguir ver o PG e se lá estivesse de certeza que não conseguiria, há uma energia tremenda que se sente quando se está a assistir a um espectáculo ao vivo e que a televisão não apanha.

O fim de semana vai a meio e já cá cantam dois filmes.
Ontem mesmo ida a correr, à sessão da meia-noite, ver o La Mala Educación, que isto de haver um novo filme do Almodóvar em exibição é totalmente incompatível com o facto de eu não o ter visto.
É sempre um gozo imenso ver os filmes do Almodóvar, mas valha a verdade que não gostei tanto deste como, sobretudo, dos dois anteriores. Pensando bem, e apesar de eu ter adorado o Habla Con Ella, talvez o Todo Sobre Mi Madre tenha sido a obra-prima do PA. E a verdade é que um realizador não passa a vida a fazer obras-primas, não é possível.
Pareceu-me um filme cansado, que denota um esforço muito grande para fazer um filme 'à Almodóvar', provocatório e excessivo. Talvez por isso, não sei, e apesar de PA considerar este um filme muito pessoal, achei que o filme não tinha a paixão, o arrebatamento, o 'pathos' dos filmes anteriores. Um pouco frio, assim tipo 'colour by numbers', com os ingredientes certos para fazer funcionar o reconhecimento e a adesão do público. Apesar do filme ter sequências supostamente muito chocantes, nomeadamente as cenas de sexo homossexual quase explícito, achei o filme um pouco convencional, e muito pouco provocador. Não tanto nos temas abordados (o facto de ser o filme mais gay de Almodóvar, ou pelo menos 'tão' gay quanto La Ley del Deseo; a pedofília no seio da igreja católica num país tão catolicamente conservador como a Espanha - e Portugal, claro) mas mais na maneira como os aborda, quase como se houvesse uma intenção explícita de 'se meter' com a igreja, de mostrar a habitual parada de travecas. Ora, quando as intenções são demasiado óbvias e evidentes, a obra perde sempre em subtileza e ambiguidade, o jogo com o espectador torna-se menos exigente.
E agora para uma coisa completamente diferente. Ou não. O melhor do filme passa por Gael Garcia Bernal e pela forma obsessiva e fascinante como Almodóvar o filma. Bom, é preciso dizer que o actor é belíssimo, e tem aquela característica de diva um pouco virginal capaz de despertar o melhor de um realizador preverso como Almodóvar (preverso no sentido em que dizemos que Hitc

- caraças! intervalo para dizer que o Peter Gabriel está a cantar a Biko. Porra, o que eu gosto desta canção. Agora é que eu queria mesmo estar lá! -

hcock era preverso com as suas loiras). Almodóvar maltrata-o, não chegava pô-lo de traveca, como o põe de traveca loira a fazer favores orais a rapazes embriagados que adormecem durante o acto, põe-no a fazer o papel passivo nas relações de coito anal, enfim, dá tratos de polé à imagem de jovem macho que GGB vem criando no cinema. Isto para já não falar na total amoralidade da personagem de Ignacio/Juan/Angel, que constitui o centro e o motor da história, nas suas mentiras, nas suas ambiguidades, no facto de dormir com quem for preciso para conseguir os papeis cinematográficos que persegue, na manipulação de pessoas e sentimentos, enfim, no homicídio puro e duro. Já sabíamos, desde sempre, que Almodóvar é um cineasta de actores (e actrizes, está claro), mas raramente na sua filmografia o actor, o seu corpo, o seu rosto, a sua fisicalidade, foi tanto e com tanta intensidade, o motor de toda a narrativa.

Já esta noite, um saltinho a Aveiro (está claro) para ver o último filme de Bernardo Bertolucci, The Dreamers, que parece denunciar uma certa vontade do realizador de regressar à receita de sexo, política e provocação, que já lhe granjeou algum sucesso no passado. A ideia é contar o rito iniciático de três jovens, dois irmãos gémeos parisienses e um 'americano em Paris', enquanto lá fora, nas ruas, se desenrolam os acontecimentos que desenbocaram no chamado Maio de 68. O filme, até pela sua ambição e pela proposta um pouco 'demodé', é um falhanço, claro, mas é impossível não simpatizar e aderir a um modo de fazer cinema que, apesar de tudo (apesar de tudo o que vivemos e de tudo o que os nossos olhos viram e de todas as experiências sexuais e de todas as doenças e de todos os desencantos com a política e de todos os adiamentos das utopias - sim, os sonhos para que remete o título do filme), pretende ainda restituir-se de uma certa ingenuidade e esperança.
Mas, para mim, o aspecto mais interessante do filme foi a sua carga cinéfila. Não só as cenas iniciais junto à cinemateca de Paris que vão ser o gérmen da revolta, como toda a subsequente narrativa sempre pontuada pelas referências cinéfilas, pelas 'inserts' de filmes clássicos, pelas referências e citações, é um filme que se constrói à volta de um imenso amor ao cinema. E só isso bastaria para o resgatar daquele limbo dos filmes falhados, e só isso basta para tornar o seu visionamento uma experiência sempre agradável e comovente.


E agora qe já acabou o concerto e que são quase quatro da manhã, acho que me vou deitar. O que é que isto tem a ver seja com o que for? Pois, não tem.
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