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rosas
innersmile
Quando os compositores e escritores de canções têm ‘songbooks’ vastos, faz parte da aventura a possibilidade de estarmos sempre a descobrir novas canções, ou seja, canções que nunca tínhamos ouvido ou a que nunca tínhamos prestado muita atenção, ou então a descobrir versões que dão a canções já nossas conhecidas um novo significado. É isso que acontece com os Porters, os Gershwins, os Lennon/McCartneys. Infelizmente, um dos grandes défices da música popular portuguesa é a total ausência de cantores, de intérpretes, que construam carreiras recorrendo às canções dos compositores portugueses, em vez de uma grande preocupação em cantar temas originais. É que não escreve grandes canções quem quer, e muitas belíssimas vozes têm soçobrado por falta de uma capacidade coerente de escolha de repertório. Para mim, o grande exemplo vem do Brasil, em que, e é só um exemplo entre muitos (muitíssimos), a Maria Bethania tem uma carreira de uma coerência a toda a prova sem nunca ter escrito uma linha de música.
Vem isto a propósito de um dos nossos escritores de canções ter um ‘songbook’ de tal modo vasto e rico que também já nos vai permitindo essa aventura da descoberta ou re-descoberta de canções, algumas delas já muito antigas. Falo do Sérgio Godinho, que toda a gente reconhece como um dos mais importantes músicos nacionais, que tem um acervo de canções poderoso, e que eu não percebo porque é que não há mais pessoas a pegar em canções dele e a fazer novas versões.
Há dois discos do SG que são, digamos assim, os ‘meus’ discos, aqueles através dos quais eu comecei a amar as canções do SG. São ambos creio que ainda dos anos setenta, o Campolide e o Pano Cru. O primeiro porque um primo que viveu lá em casa o tinha, o segundo porque o troquei por um disco qualquer que eu já nem me lembro qual era. Naquela fase em que o dinheiro era escasso e não havia os meios de reprodução que há hoje, a troca era um dos meios de podermos ter acesso a mais discos, de maneira a ficarmos com aqueles de que verdadeiramente gostávamos e passarmos a outro aqueles discos que até tínhamos comprado mas que afinal não eram assim tanto do nosso gosto.
Comprei um destes dias Afinidades, o disco que os Clã editaram com a gravação de um espectáculo ao vivo que fizeram com o SG, e onde visitam algum do repertório mais antigo do SG. A única canção do disco que eu conhecia era a ‘Espectáculo’, que, lá está, era do Campolide. Está uma versão muito bem feita, que enriquece muito a canção, e que se adapta como uma luva ao estilo dos Clã, sem perder a sua identidade enquanto canção do SG.
Mas aquele paleio todo no início sobre os ‘songbooks’ dos grandes compositores e a aventura de descoberta que sempre proporcionam, tem a ver com outra canção do disco, também do álbum Campolide. É a canção ‘Lá Em Baixo’, que de repente ‘descobrimos’ com uma força, uma capacidade dramática, surpreendentes. É naturalmente uma canção lindíssima, mas isso já não era novidade. O que esta versão dos Clã, e em especial a vocalização da Manuela Azevedo, nos traz, é que se trata de uma canção excepcional, parece um romance, um daqueles tijolos volumosos que parecem conter uma parte significativa da vida lá dentro. Esta canção é assim, pode ser ouvida como um romance, podemos ir à procura, em cada estrofe, em cada verso, das histórias que ela conta e das histórias que se escondem, que se insinuam, que aparecem como um estranho na noite (‘lá em baixo’) e logo desaparecem uma esquina de breu e bruma.
O Sérgio Godinho é realmente um extraordinário escritor de canções, toda a gente sabe disso. E a prova é que é possível a um outro músico pegar numa canção do SG e enriquecê-la, dar-lhe um brilho e uma cintilação ainda maior do que tinha na versão do próprio autor.

LÁ EM BAIXO

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente

E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão tarde
há quem cresça no escuro
e do dia se resguarde
há quem corra sem ter braços
para os braços que os aceitam
e seus braços juntos crescem
e entrelaçados se deitam
e a manhã traz outros braços
também juntos de outra forma
de quem luta e ao lutar
a si mesmo se transforma

Lá em baixo ainda há quem passe
e um sonho que anda à solta
vem bater à minha porta
diz a senha da revolta
vou plantá-lo e pô-lo ao sol
até que se recomponha
é um sonho que acordado
vale bem quem ele sonha
lá em baixo, até já disse
que é que tem a ver comigo
e no entanto sobressalto
se me batem ao postigo

Lá embaixo ainda anda gente
e uma cara conhecida
vai abrindo no escuro
uma luz como uma ferida
como a luz que corre atrás
da corrida de um cometa
e vejo vales e valados
no sopé de uma valeta
lá em baixo ainda anda gente
e uma cara conhecida
vai ateando noite fora
um incêndio na avenida

És tu Maria, eu sei, já sei, és tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
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rosas
innersmile
agora ali no canto da minha sala
há dois pássaros
daqueles de madeira, magrinhos e longilíneos
que os pretos vendem nos passeios
sob o fogo sombrio das acácias
das avenidas de Maputo

cantam as aves, os longos bicos
voltados para o tecto. chegaram voando?
não sei. mas pousaram mesmo em cheio
no sol austral que brilha
sobre o fogo sombrio das acácias
agora ali no canto da minha sala
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