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innersmile
E agora, um momento de solitário comprazimento.

Faz hoje um ano, experimentei pôr em prática uma ideia um pouco peregrina que me andava a tentar. Criei um blog (sim, porque este innersmile não é um blog!), porque é a única forma que eu consigo de pôr o que quer que seja on-line, e transcrevi para lá um poema de um poeta que tinha, na altura, explodido há muito pouco tempo no campo um pouco errático das minhas leituras e dos meus amores poéticos.

Eu tinha estado poucos meses antes em Moçambique, numa viagem que me marcou como nenhuma outra, e como poucas experiências na minha vida. Trouxe, como sempre que vou a qualquer lado, o habitual carregamento de livros, entre eles alguns de poesia, de poetas que eu conhecia apenas como um nome inscrito na minha memória de infância, outros de que já tinha lido poemas nalgumas antologias.

Quando vivemos alguma coisa de forma intensa e marcante, procuramos desesperadamente fixar, através das palavras dos outros (ou de fotografias, ou mesmo até de simples objectos), as nossas vagas impressões, de forma a cristalizá-las em qualquer coisa que seja mais física e menos perecível do que a nossa precária memória. Pois bem, num desses exercícios, peguei num livro antigo de poemas do Rui Knopfli, e, de repente, aqueles poemas que eu já conhecia, alguns há muitos anos, ganharam uma luz nova e galvanizante. Como se a minha viagem a Moçambique, como se experimentar a cidade de Maputo, como se ler nas suas entrelinhas a cidade mais anterior de Lourenço Marques, como se medir o meu corpo adulto de encontro às vivas lembranças da infância passada na Ilha de Moçambique, como se olhar a casa onde vivi ou a escola onde aprendi a ler e a escrever em Nampula, como se todas essas experiências ganhassem uma nova expressão através dos poemas de Knopfli, mas também como se os poemas, enriquecidos com a vivência do lugar, ganhassem uma nova dimensão e um novo sentido.

Gostava de dizer que foi um assomo de generosidade, o gesto largo da partilha, mas não. Foi antes, digamos, uma certa necessidade de dar testemunho, de cristalizar, de deixar um registo que me ultrapassasse (como aqueles grafitos que se põem nas paredes das cidades estrangeiras a dizer “estive aqui” ou o testemunho dos amores que se gravavam nos troncos das árvores), que me animou a ideia de começar a pôr poemas de Knopfli, mas também dos outros autores moçambicanos que ia conhecendo, num blog, como disse, a única maneira que eu sei de publicar on-line.

A princípio, ainda acompanhei os poemas de uns textos, umas explicações muito breves, mas depois apaguei essa ganga toda que só desfeava e complicava os poemas. Depois aquilo começou-me a dar gozo, até porque um blog, mesmo que seja assim tão escasso e esparso como esse tem sido, é sempre uma forma de brincarmos com o tempo, de tentarmos vê-lo passar, que é uma das coisas que me fascinam, sobretudo à medida que vou envelhecendo.

Durante muito tempo, tive a percepção de que eu próprio era o único leitor do blog. Depois, pus lá um daqueles contadores de visitas e reparei que, às vezes, sobretudo no dia ou nos dias imediatos a pôr um poema, lá aparecia o registo de outros olhares, de outras leituras. Há poucos meses, algumas pessoas começaram a pôr links nas suas próprias páginas, e o número de visitantes aumentou exponencialmente. Quer dizer, passou de três para seis ou sete ou nove!

Mas se este estonteante número de leitores me dá muito prazer, por saber que há pessoas (uma que fosse) que procuram o blog, que lêem os poemas que lá aparecem, que eventualmente se poderão interessar por conhecer melhor algum dos poetas publicados e comprar os seus livros, a verdade é que o blog continua a ser uma aventura pessoal e solitária. Como se fosse o meu exclusivo jardim, onde semeio e cuido das plantas que me dão, a mim e só a mim, prazer e deleite. Um solitário comprazimento. Quando me levanto aqui desta mesa onde escrevo, vou ali à estante, pego num livro e o desfolho, até deparar com um poema que pede, reclama, exige!, comparecer à sombra dos palmares.
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