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guarda-os tu
rosas
innersmile
Numa conversa que tive aqui há uns tempos, não consegui explicar a uma pessoa amiga como é que nos podemos sentir amigos, como é que podemos sentir afecto, por pessoas que nunca vimos, de quem nunca sentimos o cheiro ou o calor do toque na pele. E de certa forma, não consegui explicar, porque nem percebo muito bem. Para mim, como certamente para essa minha amiga, não há amizade, que é só uma forma menos obstinada de amor, sem afecto, e não há afecto sem os cinco sentidos. Porque o afecto, a amizade e o amor, são sempre dirigidos ao outro, àquele que está do lado de fora do nosso corpo, e sem o qual nos sentimos inúteis e à deriva. E não se pode sentir afecto, amizade ou amor, por abstracções, por meras construções intelectuais, porque o outro, esse tal outro que nos anima, tem de ser igualmente um corpo, um rosto, um cheiro, um certo calor da pele.

Mas se não é amizade ou amor o que sinto por algumas pessoas que não conheço, que não conheço nesse sentido táctil do termo, então não sei como se chama ao sentimento que me liga a algumas pessoas que vivem a milhares de quilómetros de mim, de cujas existências não sei nada, a não ser um fio de ternura e uma maneira de se mostrarem ao mundo que me acomoda como um leito.

Não consegui explicar à minha amiga como é que eu gostava tanto de uma pessoa que não conhecia pessoalmente, apesar de nos correspondermos de uma forma intensa e profunda há meses, apesar de falarmos ao telefone como se entre nós não houvesse, literalmente, um oceano de distância, que, no exacto momento em que a vi, se materializou todo esse afecto, toda essa amizade, todo esse amor, e hoje 'sinto-nos' como se fossemos velhos amigos.

Veio tudo isto, porque tenho estado a pensar em três amigos meus, amigos desses ausentes, distantes, longínquos.
A Ana e a Lise, nestes últimos dias, deram-me mimos, sem eu ter pedido, sem eu estar à espera. Disseram-me coisas bonitas e aconchegantes, fizeram-me sentir importante, quer dizer, a única forma de importância que tem importância, que é sentirmo-nos importantes para os outros. O Saint, por seu lado, é já um irmão, e mesmo quando andamos um pouco desligados, sabemos que nos havemos de ter um ao outro na vida. O que, no entanto, não me impede de ter saudades dele.

A verdade é que até me sinto um pouco constrangido. Estão-me sempre a fazer o favor (melhor seria a caridade...) de dizer que escrevo bem e tal, e de repente sinto-me à mingua de palavras que reciproquem, sem cair no lugar-comum, o que tenho recebido em dádiva de palavras.
E não sei se vem a propósito, mas neste poema do Konstantino Kavafys está, nem sei bem se consigo explicar porquê ou como, aquilo que eu tenho andado a sentir necessidade de dizer à Ana, à Lise e ao Saint.


CINZENTOS

Ao olhar uma opala meio cinzenta
lembrei-me de dois belos olhos cinzentos
que vi; haverá uns vinte anos...

.....................................

Durante um mês amámo-nos.
Foi-se embora depois creio que para Esmirna,
para lá trabalhar, e nunca mais nos vimos.

Ter-se-ão desfeado - se vive - os olhos cinzentos;
ter-se-á estragado o belo rosto.

Memória minha, guarda-os tu tais como eram.
E, memória, o que podes deste meu amor,
o que podes traz-me de volta esta noite.