May 20th, 2004

rosas

sylvia

O ‘bio-pic’ é um género cinematográfico, com as suas regras, os seus conceitos, e, até, os seus subgéneros, que vão desde o épico ao íntimo, desde o relato quase documental à extravagância efabulatória. E não se trata meramente de fazer biografia em cinema, ou seja, de transpor para cinema aquele que é um dos géneros literários por excelência. Enquanto género literário, a biografia tem essa preocupação pelo rigor, pelo documento; ainda que o autor manipule a vida do biografado para nos apresentar uma visão mais simpática ou mais crítica, ainda que minta pura e simplesmente, o biógrafo tem sempre a aspiração de estabelecer a versão definitiva da vida do biografado. Ainda que, repito, ele saiba ou tenha consciência de que essa versão é pura fantasia. Ao invés, o cinema, o ‘bio-pic’, não tem essa aspiração de rigor. Em termos ideais, o cinema parte sempre da realidade, daquilo que foi a vida, ou parte dela, do biografado, para construir um universo eminentemente cinematográfico, uma narrativa que seja, ainda que assente em factos ou vidas reais, uma ficção cinematográfica. Não significa que os realizadores de cinema sejam todos mentirosos compulsivos e fantasistas. Significa antes, e mesmo que estejamos a falar desse género maior que é documentário, que o cinema, pelas características próprias da sua linguagem, pela forma como se constrói e estrutura (pela sua sintaxe, diríamos), pelo seu profundo e incontido e contaminante desejo de se expor e revelar aos olhos dos outros, tem sempre a aspiração de contar uma história, é sempre uma ficção. Enquanto na literatura todos nós conseguimos estabelecer, mais não seja através do reconhecimento, a fronteira clássica entre a ficção e a não-ficção, no cinema essa fronteira pura e simplesmente não existe, ficção e não-ficção não são mais do que os inabitáveis extremos de um continuum. O cinema é sempre uma fábula.

Tudo isto a propósito de Sylvia, o filme de Christine Jeffs sobre a escritora Sylvia Plath e a sua relação com a poesia e com o marido, o também poeta Ted Hughes. Nos termos do enunciado, faz relativamente pouco sentido estar a analisar o filme do ponto de vista dos factos, com o objectivo de apurar se o filme é mais ou menos fiel à biografia dos visados. Mais interessante é analisar a verdade ‘cinematográfica’ do filme, e é neste âmbito que, na minha opinião, o filme falha com algum estrondo, de tal forma que esse falhanço compromete até alguma simpatia que o filme desperta.
A primeira grande falha do filme tem a ver com o simplismo da narrativa, com uma espécie de freudianismo de trazer por casa, que liga, inclusivamente sem muita convicção, a perda precoce do pai, a infidelidade do marido e a depressão de Sylvia. Na vida, mesmo na vida dos filmes, as coisas nunca se passam de modo assim tão linear. Este simplismo é fatal porque retira espessura ao filme, torna-o superficial e previsível.
A outra falha, e esta verdadeiramente descomunal, tem a ver com a total ausência da poesia de Sylvia na construção narrativa do filme. Tudo o que o filme devolve é, por um lado, que a poesia era assim uma espécie de profissão, de ofício, entre sessões de dactilografia, conversas com agentes e contratos com editores; por outro lado, os poemas que aparecem no filme têm sempre uma função pouco mais que ilustrativa, um a abrir, outro a fechar, e está arrumado. Ou seja o filme falha porque o processo poético, a vivência da poesia tal como Sylvia a experimentou (e que muito provavelmente teve mais a ver com a sua morte do que os freudianismos avançados pelo filme), a tensão dramática que marcou uma existência humana, estão completamente ausentes. E, tratando-se de uma poesia tão visceral, tão vivida a sangue e desespero, que marcou tanto e de forma tão trágica uma vida, tal ausência não é só imperdoável, é totalmente absurda.
Salva-se alguma coisa? Muito pouco. Salva-se, claro, o interesse que sempre despertam estas histórias à volta da escrita, da literatura, dos processos e dos autores. Salva-se, mas não de forma totalmente redentora, o desempenho de Gwineth Paltrow. E salvar-se-á, eventualmente, algum interesse por descobrir a poesia de Sylvia Plath que este filme poderá proporcionar.