May 15th, 2004

rosas

americanos-canto e piano

Auditório do CAE, na Figueira da Foz, às moscas para o recital de Vera Mantero, com Nuno Vieira de Almeida ao piano, ‘Os Americanos’, 14 canções de musicais norte-americanos, compostas por Irving Berlin, Cole Porter, George Gershwin, Kurt Weill e Frank Loesser. Mantero, como se sabe, é coreógrafa e bailarina, uma das mais conhecidas da dança contemporânea portuguesa, e com este recital, segundo me lembro de ter lido por aí, quis experimentar a sério incursões no canto que já resultavam do seu trabalho na dança. Não sendo cantora, Vera Mantero mantém-se sempre muito agarrada à estrutura melódica das canções, servindo-as com uma voz segura e suave, o que permite escutar canções muito populares com uma pureza e simplicidade muito raras. Em dois ou três números, Vera Mantero ensaiou mesmo um certo nível de interpretação das canções, juntando-lhes adereços e/ou alguma gestualidade. Não sendo de todo indispensáveis, esses apontamentos resultaram nos momentos mais divertidos e animados do recital.
Não deixa de ser curioso que sendo Vera Mantero da área da nova dança, com uma acentuada componente de experimentalismo, tenha escolhido para esta sua estreia no canto, um domínio musical muito mainstream, aquilo que poderíamos mesmo chamar de clássico do teatro musical de entretenimento popular. A provar, eventualmente, que não há géneros, ou sub-géneros, maiores ou menores, com maior ou menor caução de seriedade cultural. Mas também me pareceu, e não apenas pelo encore ou pelas escolhas de Kurt Weill, que Mantero de alguma forma se deixou seduzir pelo exemplo de Ute Lemper.
Além do resto, Vera Mantero pontuou a sua prestação de um subtil sentido de humor. Como são exemplos as canções escolhidas para abertura e encerramento do recital, ambas de Irving Berlin: ‘The best things happen while you’re dancing’ e ‘Choreography’. Sabendo que Vera Mantero é um nome da dança, a escolha já de si seria significativa. Mas a verdadeira pérola de humor e ironia (aquilo que em inglês se denomina por ‘tongue-in-cheek’) está na escolha de ‘Choreography’ para encerrar o recital, a provar que a melhor gargalhada, a mais poderosa e eficaz, é aquela que se dirige a nós mesmos. Como se demonstra, sabendo que Mantero tem investido sobretudo na sua carreira de coreógrafa, pela letra da canção de Berlin:

The theater, the theater
What's happened to the theater?
Especially where dancing is concerned

[1]
Chaps who did taps aren't tapping anymore
They're doing choreography

Chicks who did kicks aren't kicking anymore
They're doing choreography

Queens with routines
That would stop the show in days that used to be

One and all
They're not chancing what we used to call dancing
Instead of dance, it's choreography

[2]
Jakes who did breaks aren't breaking anymore
They're doing choreography

Who did softshoe doesn't do it anymore
They're doing choreography

Heps who did steps
That would stop the show in days that used to be

Through the air
They keep flying like a duck that is dying
Instead of dance, it's choreography





Oportunidade ainda para ver com mais vagar e desafogo uma exposição que já tinha espreitado na noite do concerto do Elvis Costello, fotografias da colecção Ferreira da Cunha, pioneiro da reportagem fotográfica na imprensa nacional (de actualidades e desportiva), ou seja daquilo que hoje se denomina por foto-jornalismo. Os trabalhos apresentados nesta exposição incluem outras autorias, para além da de Ferreira da Cunha, e abarcam temas como a política, a vida militar, a vida social e o trabalho. Uma exposição de elevado interesse, quer pela qualidade das fotografias mostradas, quer pelo seu valor documental, quer ainda pelo contributo desta colecção para a história da fotografia portuguesa.