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conto: monólogo para 365 fotografias
rosas
innersmile
MONÓLOGO PARA 365 FOTOGRAFIAS

Para o
Bruno Espadana



«Mas o essencial da vida passa sempre fora das fotografias, fica sempre para lá da linha branca da moldura, a fotografia apenas te devolve em papel brilhante a vaga ideia de uma vida, um retrato imperfeito e incompleto, um defeito, o projecto de um voo que nunca se soltou do solo. A fotografia é a memória de um desejo frustrado, um calendário de dias ausentes, a crónica de um desastre, mas de um desastre sereno, um desastre em que a única vítima és tu, que achas que podes aprisionar a vida num pedaço de papel brilhante. Mas então porque olhas tu as fotografias? Que transtorno te causa o olhar dos outros? Acaso viverás desse olhar alheio, de uma vontade, ainda que desastrada, que não é tua? O essencial da vida fica sempre fora das fotografias, tu sabes, mas é a única forma de a conseguires ler, o teu único instrumento de navegação, a tua carta de marear, a tua bússola, a tua estrela polar? Arrastas-te para a fotografia como quem vai à procura da vida (mas dão-te dias, como no poema de Ruy Belo), como quem sabe que a única coisa que a fotografia aprisiona não é a vida, não é o essencial da vida, mas o tempo. É esse segundo que a fotografia segura, é ela que te retém por mais um centésimo de segundo, é ela que te devolve o espelho do que tu eras no milésimo de segundo anterior e te diz «vês? é isto que tu foste». E se a fotografia é a memória do tempo, de um outro tempo, de um tempo outro, do tempo que docemente escorre para o teu fim, do tempo que corre quando respiras, mas igualmente do tempo que passava (ó tardes de Sábado britânicas, escorridas entre o céu cinzento e a erva verde, como numa canção de Caetano) quando tu ainda não tinhas chegado e que continuará a passar, em Brisbane como em Eau Claire, Wi, em Buenos Aires como em Sligo, em Maputo como na Praia da Nazaré, irremediavelmente, serenamente, mesmo muito depois de ter morrido quem ainda se lembrava de ti, de ti nalguma fotografia gasta e puída; se a fotografia é a memória do tempo, dizias, então está certo que a fotografia seja a única memória de que és capaz, faz sentido alinhar assim, certinhas, em fila indiana, as fotografias como se fossem passos, e procurar, em vão, o caminho dos teus dias. Arruma-as assim, uma a uma, lê-as com a atenção bovina de quem estuda um mapa, mira-as pela frente e pelo verso, procura-lhes, no íntimo, outras palavras, até quem sabe um verso, uma sentença bíblica que te redima da tua solidão. (...) Como era esse dia? Como era: chovia, fazia sol, estava cinzento de nuvens ou azul como vidro? Lembras-te ou só te consegues lembrar se vires a fotografia? Lembras-te: havia uma rapariga numa bicicleta, rapazes que corriam atrás dela, um bombardeiro a sulcar os ares, Londres a arder sob as bombas? Consegues ver na fotografia que a rapariga estava feliz? Não é para o rosto da rapariga que te chamo a atenção, os rostos são superfícies planas como as fotografias, não, é mesmo para a fotografia, consegues ver nela tudo o que nela se revela, ou vês mais do que se via nesse dia longínquo em que as bombas começaram a cair sobre as cúpulas das catedrais? Irás também incluir essa fotografia (falavas ainda há pouco do tempo que parece correr apesar de ti, e talvez corra) no fio dos teus dias? Diz-te alguma coisa, essa rapariga da fotografia feliz a correr de bicicleta para um monstruoso engano? Reparas como a fotografia não capta o rosto feliz, mas antes a felicidade do momento? Um momento de felicidade como uma manhã de pesca (outra fotografia, outro dia, outra conta do rosário que insistes em captar como quem reza). O espelho tranquilo do lago, as roupas quentes e confortáveis, o café morno e aromático da garrafa térmica, o coaxar das rãs. O peixe a pedir para ser apanhado. Pobre peixe, falas dele como se fosse a voz de um locutor numa estação de rádio desconhecida que por acaso sintonizas em viagem. (...) Percebes então que a fotografia não é luz, mas sim tempo? Não capta o tempo, não o documenta, não o cristaliza. Antecipa-o. Estabelece como que um tempo paralelo ao tempo no qual fotografas. E que esse tempo não é o teu tempo, não é o tempo da tua vida, é o tempo que corre fora de ti, que ora anda num passinho ligeiro pulando à tua frente, ora se demora num outeiro de flores, como um cachorro. Onde cabe então o que fica fora da fotografia? Como segurar o tempo? Não sabes, estás a ficar velho. Carregas-te, quando antes era o corpo que te carregava. Havia uma inconsciência, uma leveza. O infinito é leve. O que pesa é o limite, é a linha do horizonte, é a placa dos quilómetros em contagem decrescente. E tu, embora não o sabendo, aproximas-te do essencial. Porque se o essencial da vida não passa pelas fotografias, o essencial de ti está lá, em corpo inteiro, é lá que tu te pesas, é lá que te medes contra a decadência, é lá que te contas e te desfias, é lá que lanças os teus desafios, é lá que escutas e apreendes, é lá que seduzes e esqueces, é lá que tentas capturar a única coisa que não existe, a única que não consegues ver, é lá que desesperadamente tentas que por mero acaso se revelem os mistérios que te inquietam e perturbam. Vês-te ao espelho em cada uma dessas trezentas e sessenta e cinco fotografias em que transformas os dias. Olhas o teu corpo. Olhas o teu corpo nos corpos dos outros, como única profilaxia contra a solidão. Tentas, imagem a imagem, sobreviver ou adiar a loucura. Apesar de saberes que um dia todo o sentido que os teus dias vão fazer é estarem alinhados, um a um, como num herbário. Ou como num álbum de fotografias. Mas agora a tarde finda, é quase noite. Saímos?»


[com um grande abraço de parabéns]
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