May 6th, 2004

rosas

(no subject)

Havia uma canção antiga do Bruce Springsteen, acho que era do álbum ‘Nebraska’, em que o refrão era mais ou menos assim:

"Me and Franky laughing and drinking
Nothing feels better than blood on blood
Taking turns dancing with Maria
As the band played Night of the Johnstown Flood
I catch him when he's straying
Like any brother would
Man turns his back on his family
Well he just ain't no good"


O meu irmão hoje fez anos. Quase cinquenta. Telefonei-lhe de manhã para dar os parabéns. Sempre com aquele meu tom um bocado frio. O gajo atende o telefone e quando descobre que sou eu começa a dizer que tinha muitas saudades de ouvir a minha voz e a agradecer muito o meu telefonema. Brincámos um bocadinho, um daqueles telefonemas como costumávamos fazer, em que não dizemos nada um ao outro. Eu mandei bocas por causa do gajo ter quase cinquenta anos. E desligámos.
Passados cinco ou dez minutos, o telemóvel toca e era ele. Disse-me, e eu sentia-lhe a voz embargada, que tinha muitas saudades de me ouvir. Eu tentei manter um ar cool e disse-lhe que ele me podia ligar se tinha assim tantas saudades. E ele disse qualquer coisa do género: ‘a vida é fodida mas gostei mesmo que me tivesses telefonado. Fiquei assim com o peito cheio de ar’.
Estas palavras ressoaram nos meus ouvidos o dia todo. Fiquei a achar que lhe devia ter dito que é verdade que estou muito zangado com ele, mas que também é verdade que ele, a mim, nunca me fez nada, nunca fez nada que me tivesse magoado. Mas não disse nada, e, por uma vez, estou contente por não o ter feito.
É verdade, mano, a vida é fodida. Ou então nós os dois temo-nos entretido muito a fodê-la. Tu, porque não dás atenção e carinho a quem mais te ama, e de uma maneira absolutamente incondicional e desinteressada. Eu, porque não consigo lidar com isso, e faço-te pagar facturas que não tenho coragem de te apresentar pessoalmente.
Bom, mas pela minha parte, tu hoje fizeste com que ela fosse um bocadinho menos fodida do que é habitual.