May 3rd, 2004

rosas

margaret

Artigo ontem na Pública sobre as comemorações dos 25 anos da primeira tomada de posse de Margaret Thatcher como chefe do governo britânica.
Sempre detestei a Thatcher, sem cerimónias ou subtilezas. Não fui ao ponto de ficar triste quando o IRA falhou o atentado de Brighton (ou seria Blackbourne?), de certa forma até foi a altura em que mais simpatizei com ela, porque me solidarizo sempre com aqueles que são vítimas de ataques soezes. Eu sei que, muito provavelmente, a Thatcher lançou as sementes do que é a Inglaterra de hoje, nomeadamente no que toca ao dinamismo da economia e da sociedade inglesas, mas chocou-me muito a falta de compaixão que ela sempre revelou em relação aos milhares de vítimas do seu capitalismo popular (que, claro, foi só uma forma de transferir a propriedade das empresas privatizadas do Estado para as mãos dos capitalistas não-tão-populares). Chocou-me a dureza com que ela enfrentou a mais longa greve da história do sindicalismo europeu, a greve dos mineiros em 1984, e chocou-me mais ela ter mandado para o desemprego milhares de mineiros, tudo para fazer vergar o forte poder dos sindicatos ingleses. Chocou-me ter acabado com o GLC, que era um organismo que dava a Londres dinamismo, respeito pela diversidade cultural e qualidade de vida, só para acabar com um forte bastião dos trabalhistas e poupar lá mais umas librasitas. Chocou-me a forma impiedosa como mandou varrer as tropas argentinas no final do conflito das Malvinas, só para ´keep up’ o espírito dos ingleses e obter uma vitória eleitoral esmagadora. Chocou-me a vassourada puritana com que pretendeu varrer a Inglaterra, como prova a infame Clausula 28, que proibia a utilização nas escolas de obras literárias que "promovessem" a homossexualidade. Chocou-me sempre o seu anti-europeismo arrogante e desconfiado. Se há uma coisa que eu posso agradecer à Thatcher é ter reforçado o meu esquerdismo, numa fase, lá por meados dos anos 80, em que tive uma pequena recaída!
Mas a verdade é que me comoveu o artigo da Pública. Caraças, aquela tipa foi, durante muitos anos, uma das pessoas mais poderosas do mundo, foi uma estadista que marcou e desenhou o mundo tal como hoje o conhecemos (por exemplo, ajudando o Reagan a subir a pressão sobre a União Soviética, que iria provocar o descalabro do bloco de leste). A Thatcher não era um destes governantes light que temos hoje em quase todos os países da Europa, nada disso, era uma gaja com tomates, que marcava ela própria a agenda política, em vez de ir a reboque dos tecnocratas e dos capitalistas (bom, é outro assunto o facto de a Thatcher eventualmente ter ajudado a criar este mundo em que quem manda são as multinacionais). A prova de que a mulher era um estadista exemplar é que se tornou modelo para uma série de tipos, como por exemplo o Cavaco que era um admirador confesso.
E faz impressão ver esta tipa que foi uma das pessoas mais poderosas do mundo, acabar taralhoca e sozinha. Vítima, de certo modo, do mundo superficial e acelerado que ajudou a criar. Vítima desse mundo em que só o que é produtivo tem valor. Incrível, como esta mulher, que foi poderosa a um nível que nós dificilmente conseguimos imaginar, acaba pobre, sozinha e patética.
Há uma história que se conta e que eu não sei se é verdade, mas se não for, é uma boa lenda, demonstrativa do que é a política e de como era a Thatcher. Conta-se que por alturas do início do seu terceiro e último mandato, a Thatcher deu uma entrevista, não sei se à rádio se à televisão, em que a certa altura lhe foi perguntado que reformas se propunha fazer. Animada pela embalagem da resposta, a Thatcher incluiu nos seus projectos a reforma do NHS, o serviço nacional de saúde inglês. A resposta deixou estupefactos os seus assessores, porque a reforma do NHS nunca estivera na agenda do partido conservador, e porque, em termos de opinião pública, o NHS era considerado um dos melhores sistemas de saúde do ocidente. Mas já que tinha sido anunciada, a reforma tinha de se fazer, e, supostamente, essa resposta inadvertida deu origem os famosos ‘white papers’ que reformaram, alguns diriam assassinaram, por completo o serviço nacional de saúde inglês.