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disritmia
rosas
innersmile
É preciso estar atento aos sinais.
Chegou numa tarde quente no hemisfério sul, quando numa mesa perto daquela onde eu estava a almoçar, no Porcão do Aterro de Botafogo, almoçava o seu autor, Martinho da Vila.
Três dias depois, numa noite de Domingo, no Canecão, apresentou-se em força, pela voz e pela presença do Ney Matogrosso e Luis Pedro e a Parede.
No Sábado a seguir, já cá deste lado do equador, comprei o CD, Vagabundo.
Ontem, levei o cd para o leitor do carro, mas mal consegui ouvi-lo nas viagens casa-trabalho-casa.
Hoje, finalmente, explodiu total sob a minha pele.
Intitula-se DISRITMIA e é assim:

Eu quero me esconder debaixo
dessa sua saia, pra fugir do mundo
Pretendo também me embrenhar
no emaranhado, desses seus cabelos
Preciso transfundir teu sangue
pro meu coração, que é tão vagabundo
Me deixe te trazer num dengo
Pra num cafuné fazer os teus apelos
Eu quero ser exorcizado
Pela água benta desse olhar infindo
Que bom é ser fotografado
Mas pelas retinas dos seus olhos lindos
Me deixe hipnotizado
Pra acabar de vez com essa disritimia
Vem logo, vem curar teu nego
Que chegou de porre, lá da boemia


E agora que entrou, não me sai dos ouvidos.
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(no subject)
rosas
innersmile
Por causa de uma exposição que está no Porto, e que eu tenho obrigatoriamente de ir ver, andei a fazer arqueologia do innersmile, à procura de uma entrada onde escrevi sobre o trabalho do artista.
O que vem aqui ao caso, é que quando andamos à procura de uma coisa, encontramos muitas outras de que não andávamos à procura, e que por uma razão ou outra, nos prendem a atenção. Foi o que aconteceu. Fui encontrando outras entradas no innersmile, contos, poemas, e é engraçado como umas vezes as entradas não me dizem nada, leio-as quase como se tivesse sido outra pessoa a escrevê-las. Mas há outros textos em que mal começo a ler, vivo uma espécie de experiência dejá vu, vêm-me logo ao espírito os sentimentos e as emoções que estiveram por detrás do texto, aquilo que eu senti e que me levou a escrever. É como que um recriação da circunstância em que o texto nasceu.
Aconteceu ainda há pouco. Ao ler um poema, fui automaticamente transportado para o momento em que as palavras, em que os versos, me vieram à cabeça, pelo menos as palavras iniciais, aquelas a partir das quais o poema se foi compondo.
Visualizei o que vira então, a bicicleta presa ao gradeamento, a figura ligeira e ágil a atravessar a avenida pelo meio do trânsito. Eu estava sentado num café, voltado para o exterior. Era o fim do Verão, ou talvez até fosse já Outono. E reconstruíram-se os sentimentos que me assaltaram então e que tiveram de ser resolvidos através das palavras, muitas vezes a única forma que temos de desatar um nó espiritual, ou pelo menos a melhor forma que conseguimos arranjar para ultrapassar uma perturbação, um transtorno. Uma certa tranquilidade perante a beleza dos gestos, dos movimentos. A angústia de estar a presenciar algo que não possuo, que já tive e perdi, ou que nunca tive ou irei ter, o terrível vazio que nos provoca o inacessível. Até a inveja, uma certa raiva surda, por haver quem possua essa suprema leveza dos pássaros e eu ser sempre um réptil colado ao chão. Há sempre essa dualidade, ao mesmo tempo opressiva e libertadora: por um lado comove a visão da beleza, enche-nos de alegria, de felicidade, faz o sol brilhar com mais intensidade, mas, por outro, há um sofrimento, uma dor, uma tristeza, por sabermos que toda a beleza do mundo ser-nos-á sempre negada.