April 27th, 2004

rosas

(no subject)

deus é água
a água de onde vieste
a água que se despenha e molha o teu rosto
a água que cola a camisa ao teu corpo precário e transitório
a água que um dia ainda vais chorar diante de uma campa rasa
e depois um dia lá dentro
a água
rosas

conto: os olhos de lígia

OS OLHOS DE LÍGIA


(para o S.)


Trouxeste-me Lígia pela mão, e a sua presença leve e subtil era o contraponto perfeito para a nossa desastrada impossibilidade.

Lígia era uma mulher jovem, moça ainda. Tinha o insondável mistério das mulheres nórdicas morenas. O rosto redondo, o cabelo fino e ralo a descair sobre a testa alta, os lábios pálidos descerrados o suficiente para mostrar o intervalo entre os dentes da frente. Uma mulher muito bela, e elegante como a música de câmara que chega de um quarto ao lado. Bebia os seus licores em tragos breves e espaçados. A bebida demorava-se na boca, e parecia volatilizar-se sem chegar a engolir. E todo o tempo Lígia estava calada, os gestos reduzidos ao mínimo. Pela sua expressão parada, mesmo um pouco vazia, dir-se-ia que Lígia estava ausente. Puro engano, claro. Nós sabíamos como, naquele momento, estando os três perdidos (ou encontrados, talvez seja mais exacto) num bar de madrugada arrastada, era Lígia quem segurava, precisamente, e com firmeza, as rédeas do destino da nossa história.

Um de nós está desencontrado, fatalmente. Quero dizer, necessariamente. Um de nós está numa cidade estrangeira, não pertence, está de passagem, como o cais de embarque de uma gare ferroviária, vaga, ou vazia, entre dois comboios. Não ao ponto de dizer que um de nós está a mais. Estamos, com efeito, os dois onde e como deveríamos estar (ou não estivéssemos, como personagens de um conto, nas metafóricas mãos de Lígia), no ponto para onde fomos congregados, quase como se respondêssemos a um chamamento, a uma convocatória. Encetámos as nossas viagens, uma mais curta, outra mais sinuosa e acidentada, e deixámo-nos conduzir, com a certeza de que um bar estaria à nossa espera, as bebidas pousadas em discos de cartão sobre a mesa de madeira com tampo de vidro, uma taça com favas secas, e um silêncio tão profundo que se ouvia por cima da música ambiente.

Na realidade esse silêncio era apenas aparente. Porque ele projectava-se, como um filme numa tela, nos olhos pálidos de Lígia, no seu sorriso enigmático e até um pouco postiço, nos seus gestos de terna ausência. Um narrador um pouco mais condoído, diria às suas personagens: “leiam os olhos da moça, vejam como tudo está lá escrito, reparem como as palavras soam perfeitas, porque tudo parece que já foi dito pelos seus olhos”. E, com efeito, a serena expressão de Lígia parecia conter todos os segredos, todas as subtilezas, as pausas, os bem e os mal-entendidos. Liam-se os olhos de Lígia como se fossem páginas escritas magistralmente por um escritor que tudo percebesse. E, no entanto, quem olhasse Lígia nesse momento, no bar, talvez apenas visse uma jovem mulher nórdica, delicada, mesmo um pouco desajeitada, sem perceber muito bem se esse seria o seu lugar no mundo ou se sequer haveria algum lugar para ela.

Trazias Lígia pela mão quando nos encontrámos junto ao elevador que nos conduziria às profundas alturas do bar de cobertura do arranha-céus mais alto. Que lindo, exclamou Lígia, abeirando-se da janela, quando entrámos no bar. Vê-se a cidade toda. Mas era, apesar de tudo, uma cidade pequena, o olhar conseguia abarcar as luzes até ao final do subúrbio mais distante. A cidade poderia ser uma promessa de encontro ou uma promessa de despedida, e nós procurávamos o olhar de Lígia, tentando perscrutar a resposta certa. Mas Lígia bebia os seus licores, e havia qualquer coisa na forma como o fazia, em tragos breves e espaçados, que nos dizia que não era ainda o tempo das respostas, que era ainda demasiado cedo para a noite se revelar. Aguardássemos, então.

Era já quase manhã quando Lígia adormeceu. A cabeça encostada no teu ombro, os pés apoiados no meu colo. Por um instante, olhar Lígia, olhar a sua beleza descomprometida, parecia quase insuportável. Havia uma ilegibilidade no seu rosto, que parecia anunciar que Lígia sabia todas as respostas, apesar de nem ter consciência disso. Era insuportável admitir que todas as respostas estariam contidas nos poros da pele daquele rosto adormecido. Na marca dos copos no vidro da mesa. No rosto cansado do barman, que nos olhava dos seus cotovelos pousados no balcão, a luz acentuando olheiras mal dormidas.

Um de nós tinha a chave do quarto, mas havia um último mistério nessa madrugada: quem se deitaria na única cama larga? A cama parecia feita à medida do sono e do corpo abandonado de Lígia. Mas havia nos nossos olhos sem respostas a breve chance de um voo, a humidade de uma mancha, um roçagar de penas. O desalinho de um desastre.

Lígia continuava dormindo.



Não sei que horas são nesse teu lado do mundo, do quarto, da cama. Estás voltado para o outro lado, e eu não sei se estás a dormir ou se estás acordado. Não sei se essa luz que banha o teu ombro é o primeiro raio de sol ou o derradeiro fulgor da lua.

Trouxe-te Lígia pela mão. E tu deixaste-a a dormir, deitada no parapeito de uma janela de uma cobertura de um arranha-céus. Fria e serena, adormecida na curva insuportável do teu silêncio, do teu mistério, da tua ausência, da opacidade absurda do teu vazio. Trouxe-te Lígia porque acreditei que lerias o seu silêncio como a resposta ao teu silêncio, mas tu deitaste-a do lado de fora da janela e deixaste-a dormir. Havia em Lígia uma serenidade, uma decifração, que não soubeste aproveitar. Como se fosse a última viagem de um ferry-boat que nos transportasse para o lado de lá da neblina, da névoa que nos oculta o cume dos morros pela manhã. Veríamos cidades maiores do que esta, cada um no seu lado do lençol. Olharíamos, de braço dado, auroras infinitas, os dois, de pé, de face para o vento, à espera do sinal do dia. Subiríamos sempre lado a lado e atravessaríamos juntos os canais invisíveis de uma cidade suspensa. Sempre com o sublime olhar de Lígia olhando-nos do mistério da página. Se tu ao menos visses para além da tua cegueira. Apenas tens olhos para a cor desmaiada do leite coalhado. Não vês a voz de Lígia que, silenciosa como os gestos e como as setas, anuncia as respostas que procuras. Em vão.

Os milagres dos nossos mundos justapõem-se. Os meus florescem, em carne, nos passeios que bordejam as estradas, e nascem de novo em cada entardecer, e nascem de novo a cada manhã. Saberiam a sal, se a tua língua oca ousasse lamber-lhes a areia como a onda que morre. Morrerias mil vezes em cada um dos seus fulgores, em cada dobra da pele, do músculo que sobre ti se entornasse como uma fonte. Os teus milagres, por dentro, desprendem-se como pétalas de rosas murchas, rosas que guardas, secas, entre as páginas a arder de livros em branco. Por isso, quando chegas ao pé de mim, e eu trago-te Lígia pela mão, as tuas mãos estão mais vazias do que eu alguma vez fui capaz de supor.

Lígia acordará do seu sono. Talvez regresse ao inacessível norte de onde nos chegou, mansa e morena como as tardes à beira-mar. Talvez fale, por fim. Talvez te pegue na mão, e te deixe ler as respostas que estão sempre reflectidas nos seus olhos. Mesmo quando imaginas que as suas pálpebras estão cerradas, porque está dormindo. E quando Lígia acordar, a história terá o seu fim, mesmo que as personagens a hajam abandonado há muito. Restaremos ainda os dois? Acaba de um trago a tua bebida, pousa o copo com barulho no tampo de vidro da mesa, faz uma pausa breve, enche o peito de ar, (olha uma última vez os olhos de Lígia) e pergunta, clara e alta voz, ao narrador: restaremos ainda os dois?