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close the door lightly
rosas
innersmile
Não consigo escrever (sequer reflectir) sobre a operação apito dourado (o nome é tão deliciosamente kitch que faz pensar que há alguém com um sentido de humor perverso e malicioso lá na pê-jota), sobre a decisão de Zapatero retirar as tropas espanholas do Iraque ou sobre o facto de a revolução de Abril ter perdido o 'R'. Tudo temas sobre os quais um tipo (tenho de resistir, em nome do sentido do ridículo, a escrever a palavra brasileira de que mais gostei: "cara"; se vocês tivessem ouvido os amigos brasileiros a pronunciá-la perceberiam este meu fascínio) interessado e atento como eu, se devia pronunciar.
Mas não consigo. Estou a sofrer uma terrível fase de umbiguismo agudo, devido a esta encruzilhada sentimental que é estar ainda sob o efeito 'levitacional' da viagem que ainda agora terminou e a perspectiva nebulosa de voltar amanhã ao trabalho. Ou seja, estou no meio de um profundo ataque de melancolia, em que só me vêem à ideia imagens de uma passeio largo desenhado em ondas a calçada portuguesa e espelhado pela banho de sol intenso.

Há menos de oito dias atrás, o meu amigo brasileiro levava-me a um sebo na Avenida Rio Branco. O sebo é uma livraria em segunda mão, a meio caminho daquilo a que chamamos alfarrabista, e que vende livros usados ou restos de edições, a preços muito inferiores aos preços de capa nas livrarias normais. Pus-me, como sempre, a percorrer as prateleiras de poesia, até que já quase de saída, tropecei no escaparate dos cd’s. Nunca fui fã do rock brasileiro, apesar de qualquer tipo que se preze que viveu a música que se fazia nos anos 80 sabe que há dois ou três nomes incontornáveis. E esses nomes tiveram até alguma importância, pela corrente de influências e por uma certa postura contra o que eram os géneros musicais dominantes, na música que se fazia cá deste lado. Mas, como digo, a minha ignorância era tão grande que nem tinha muito a certeza se o Renato Russo tinha sido efectivamente da Legião Urbana. Sabia vagamente que ele era homossexual e que tinha morrido de sida.
Talvez tenham sido essas vagas reminiscências, para além do próprio título do disco, que me fizeram pegar no cd de Renato Russo, The Stonewall Celebration Concert, e ler o alinhamento. Quando terminei de ler a lista de 21 canções do disco, já tinha decidido trazê-lo. Tanto mais que não me passou despercebido, logo ali no momento, a estranha conexão entre esse disco que peguei por absoluto acaso e o mais recente disco do Caetano Veloso, que eu queria comprar no Rio de Janeiro, nomeadamente por serem ambos totalmente ocupados com trechos do songbook popular norte-americano. Outro dos pontos de contacto é o facto de, em ambos, conviverem exemplares mais clássicos (passe a contradição) da canção popular com outras faixas que roçam aquela fronteira entre a canção popular e a canção popularucha, correndo tanto Caetano como Renato Russo o risco de tentarem recuperar esses números mais, agora não resisto!, brega.
Mas se o disco de Caetano é sofisticado e elaborado como só ele sabe fazer, o cd de Renato Russo é todo emoção, sentimento à flor da pele. Supostamente o disco foi feito, em 94, dois anos antes da morte de Russo, para celebrar o vigésimo quinto aniversário dos acontecimentos de Stonewall, que marcaram o início da luta cívica nos Estados Unidos pelo reconhecimento da plenitude da cidadania aos homossexuais. Mas esta postura mais cívica do disco é largamente ultrapassada pela escolha das canções, e pelo tom emocional das interpretações. Canções de amor, daquelas muito purinhas, a escorrer dor de corno por todo o lado, cantadas sempre, ou sempre que vem a propósito, para um destinatário do mesmo género sexual do cantor. Canções de despedida, também, como se Russo estivesse destinado a fazer deste disco uma espécie de testamento sentimental.
Um disco de uma tristeza e melancolia quase dolorosa, e muito comovente. É impossível ouvir a faixa final, Close The Door Lightly When You Go, sem sentir um terrível arrepio, como se Renato Russo se estivesse a antecipadamente despedir de todos nós ("Don't look back to where you once have been Look straight ahead When you're walking through the rain And find a light If the path gets dark and cold But close the door lightly when you go...").

notícias de pequenópolis ii
rosas
innersmile
Os habitantes de Pequenópolis, em vez de automóveis, deslocam-se em carrinhos de golfe. E os autocarros 'double-deck', em Pequenópolis, apenas têm rés-do-chão e mezanine.