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rosas
innersmile
Em Pequenópolis, não se usam bilhetes-postais. Os habitantes de Pequenópolis juram os seus pequenos amores nas costas dos selos. E usam rodinhas de confetis para selar a correspondência.

conto: elvis
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ELVIS

Elvis voava sobre a Baía da Guanabara. Eram seis e quarenta e cinco da manhã, eu levantei-me para ir beber um copo de água e abeirei-me da janela do quarto do hotel, atraído pela primeira luz da aurora que atravessava as cortinas. E vi claramente Elvis voando sobre a Baía, desde o Pão de Açúcar até à Ilha do Governador, planando rasante sobre o Aterro de Botafogo. Usava um dos seus fatos brancos com incrustações brilhantes, da fase Las Vegas, que refulgia aos primeiros raios de sol, e aproveitava as mangas em asa de morcego para ganhar poder de sustentação.
Afinal, todos aqueles relatos de avistamentos não eram o produto de férteis e tresloucadas imaginações. Com efeito, eu, que me considero a mais racional das criaturas, estava ali, na janela rasgada de um dos pisos cimeiros de um arranha-céus, a ver Elvis evoluir em elegantes piruetas aéreas. Poderia comprar a camiseta a dizer ‘Elvis está vivo. Eu vi-o’. Dispus-me mesmo, ainda que um pouco turvo pela brevidade da hora, e até talvez pela suavidade branca da luz matutina, a participar com o meu testemunho em programas de televisão habitualmente ocupados por gente que eu, em horas mais clarividentes e analíticas, não recuso apelidar de paranóicas.
Não sei se foi do clima ou se existiu mesmo, mas a verdade é que, enquanto assistia ao voo de Elvis no céu austral da cidade, de dentro do quarto chegava-me, baixinho como um rádio ligado num quarto ao lado, a voz de Elvis cantando ‘Are You Lonesome Tonight’. Concedo porém: se a visão de Elvis a voar era para mim tão real como a mais primordial das células do meu corpo, admito que a canção pudesse estar a ser tocada nalgum recesso do meu ouvido interno profundo. Parecia real, repito, e todos sabem como a voz de Elvis é inconfundível e como enche o ar pesado e vazio que nos rodeia, mas, dada a hora e a minha estupefacção perante a fantástica, todavia tangente, visão de Elvis a voar, até acho possível que a canção apenas pudesse estar a ser tocada no meu sistema nervoso central. É de afirmar, no entanto, que se ouvia cada vez mais alto e distintamente, como se o vizinho do quarto ao lado, despertado pela grave voz do rei, tivesse levantado um pouco o volume da telefonia.
E debruçado na janela, os olhos colados à silhueta esvoaçante de Elvis (sem ironia, sobrevoava agora o aeroporto Santos Drummond), e os ouvidos totalmente submersos na sua voz, sinto uma sombra atravessar o canto dos meus olhos. Por um segundo, hesito em ficar a olhar para o céu, cada vez mais irisado pelos raios solares da manhã, ou em voltar a cabeça para o interior do quarto. Não resisto, como é natural. E reparo na mancha vazia e marron que desalinha os lençóis no lado da cama que não ocupo. Será possível que alguém tenha dormido ao meu lado esta noite? Apuro o ouvido na busca dos sons que os corpos sempre fazem quando se deslocam no interior das casas. Nada, apenas a voz de Elvis no rádio do vizinho. Abro bruscamente a porta da casa de banho. Vazia, claro. Mas essa mancha escura de pele no lençol, então, como explicá-la?
Faz-se silêncio, de novo, nos corredores e nos quartos vizinhos do hotel onde pernoito insone. Corro à janela, a tempo de ver a fugaz e esvoaçante figura de Elvis desaparecer para os lados do Arpoador. Volto à cama. Sacudo os restos da mancha vazia e acastanhada, e aliso o lençol no lado da cama que não ocupo. Fecho os olhos e sinto-me sereno. Sereno e satisfeito, pela certeza de que vi Elvis voar, vivo e reluzente aos primeiros raios de sol do dia, sobre a Baía da Guanabara. Adormeço no segundo imediatamente anterior ao despertador começar a tocar.
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