?

Log in

No account? Create an account

a benefício de inventário
rosas
innersmile
Acabei de chegar (a quem achou que eu tinha chegado no Domingo, desculpas pela confusão). Não durmo desde Domingo, na realidade não durmo um número de horas decente, aquele número de horas de sono que velhos como eu precisam para dar tempo às células novas de reporem o stock do número crescente das que morrem desvairadas, não durmo um número de horas decente desde há para aí duas semanas...
Por isso, e porque ainda estou em modo 'what am I doing here?', não consigo pensar muito bem no que escrever. Mas, como habitualmente, mantive um caderninho de notas durante as férias. Foi isto a última coisa que escrevi, já em pleno voo de regresso (não consigo precisar a que horas porque desde que ontem eram sete da manhã no Rio até agora que são para aí seis da tarde em Coimbra, o tempo foi um traço esborratado a grosso). Fica aí, sem muito mais editing do que o necessário para dar coerência ao que escrevi então.

Tempo para encerrar este caderno. Foi um registo fraquinho, tenho consciência. A vida de turista, para mais de turista rico em países pobres, não é muito inspiradora.
Mas se algum dia viesse a escrever um inventário desta viagem, deveriam fazer obrigatoriamente parte:
- as ruas de Buenos Aires, com o seu ar ao mesmo tempo cosmopolita e austral;
- o tango, mesmo nas suas versões mais comerciais e 'aturistadas';
- sentir nos braços uma mulher leve como uma pena que me levantou do chão e me pôs a dançar, mesmo sem eu saber como;
- ouvir um cantor de terceira categoria abrir o seu set a cantar Mano a Mano;
- estar parado em frente à Garganta do Diabo, nas cataratas do Iguaçu, e emocionar-me (de lágrimas nos olhos) perante a força da água, a minha insignificância, e a lembrança do amor dos que amo e dos que me amam;
- andar de barco sob o chuveiro torrencial da catarata;
- sentir medo de uma cidade. Nunca antes tinha sentido medo de uma cidade, eu amo cidades. Acho que esta cidade de que senti medo perdeu a inocência e isso é que é assustador;
- sobrevoar de helicóptero o Rio de Janeiro que é, com muita probabilidade, a cidade mais bonita do mundo;
- conhecer a Cila, que foi a minha companheira de viagem favorita;
- sentir que a amizade que me liga ao Pedro é cada vez mais forte e fraternal. Somos incapazes de nos chatearmos um com o outro, começamos a atingir aquele patamar em que a cumplicidade e o à-vontade são à prova de desgaste;
- conhecer pessoalmente o Saint-Clair, e sentir que o nosso encontro 'físico' foi apenas um prolongamento do que já havia entre nós;
- conhecer a Valéria, que já conhecia o innersmile, e sentir por ela o afecto que sentimos pelas pessoas que entram directamente no nosso coração sem passar pela casa da razão;
- ir ao Canecão, esse lugar mítico de todos os fãs da MPB, ver o Ney Matogrosso ao vivo (com Pedro Luis e A Parede), e no fim ir aos bastidores cumprimentá-lo e receber um autógrafo;
- andar de táxi à noite no Rio de Janeiro e conversar com os motoristas (sim, eu, que sou incapaz de conversar com alguém que não conheça de há pelo menos três encarnações anteriores);
- ver os corpos magníficos que se passeiam pelo calçadão de Copacabana, e achar que, ainda que sejam transtornantes de um ponto de vista estético, não são, de todo, o meu obscuro objecto de desejo;
- sentir desejo por alguém e uma vontade de beijar e ir para a cama (amor ou sexo? - não sei, perguntem à Rita Lee);
- comprar o último cd do Caetano Veloso (não se consegue imaginar, sem ter ouvido, o que é ouvir o Caetano a cantar a capella o Love For Sale - talvez o significado da palavra 'arrepio') e ainda, num sebo, o concerto Stonewall do Renato Russo, que é, muito provavelmente, o disco mais triste e comovente do mundo;
- constatar, mais uma vez, que, como escreveu o Justin Fox num livro que li há pouco tempo, "homecomings are half of what journeys are about. Without them the travels and travails have no raison d'être, the protagonist turns to jelly. He becomes a Vladimir or an Estragon, stuck on an open stretch of road for eternity. The journey wobbles, loses its internal logic. Ask Homer". Ou, mais simplesmente, nas palavras de um poema de Ryokan citado por Caio Fernando Abreu (que foi eventualemente a pedra mais preciosa que o Brasil me deu, pelas mãos do Saint-Clair):

"Pensar viagens
toda a noite me leva
a um pouso diferente

mas o sonho que sonho
é sempre o mesmo:
um lar."