April 7th, 2004

rosas

conto: santa clara

SANTA CLARA

Acenas-me, de encosta para encosta, mas entre nós há um rio, e o teu sorriso, o gesto leve da tua mão, a asa do teu cabelo, apenas subsistem como um reflexo no metal cinzento que nos cinge e aparta.
Entras-me pela tarde. Chegas, como chegas sempre, em alvoroço. O coração em desalinho, os lábios secos, as poses mal ensaiadas, os truques de mão. Arrastas-me sempre para dentro, para cima e para dentro, ao redor do que não existe mas é como se fosse a tua fotografia (montes, encostas, vales, a curva do rio, a ponte, e o teu corpo banhado por algum raio de sol mais afoito entre cortinas).
Aproveitas e dizes as palavras, nomeias o inominável, dás-me as deixas e eu digo-te da minha ansiedade, da incerteza, de como a minha mão se demoraria nos quadris da tarde, de como eu seria capaz de circum-navegar as fontes, de como há uma paisagem onde um palmar desce a duna arenosa até morrer na praia entre fios de água doce, e de como eu estaria disposto (mas agora já não sou eu que falo) a deitar-me lá por ti.
Depois deixas-me escorregar pela tua voz. Falas tu, então. Contas-me histórias de outras cidades, de como te escondeste a coberto da noite e transgrediste até te entornares em quartos de hotel e apartamentos de estranhos. Não há nas tuas histórias o mínimo traço da minha juventude, e talvez por isso, por um segundo, acredito em ti, acredito que uma noite mancharás os cabelos na minha almofada, encherás de cheiros os meus livros e deitar-te-ás na espuma. Acredito porque há nas tuas palavras uma vontade de madrugada, e desvendas-te nas tuas contradições.
A partir de certa altura, acredito em ti, mas deixo de acreditar em mim próprio. Já não me reconheço ao telefone, sou uma coisa sem matéria, uma arquitectura despenhada no ar. Sei, agudamente, que acabei de te perder, que já és memória, arqueologia, o sangue já seco de uma princesa morta, um desfile de fardas militares esvaziadas, um altar em chamas trazido no dorso de cavalos que escorregam na humidade polida de uma calçada íngreme.
Fico à tua espera. Mais um pouco. Aguardo os sinais das tuas promessas. Há brilho nas janelas da encosta em frente. Dir-se-ia que me espreitas, que sabes que eu ainda permaneço em vigília, que me desfloras a expectativa. Aguardo os números do teu mistério.
(A tua fotografia esbate-se de encontro ao interior das minhas pálpebras. A luz que te iluminava, que glorificava a tua nudez, que anunciava tão pura a curva do teu ombro, vai esmorecendo devagar.)
Tento uma última vez encostar-me ao pilar que julguei seguro.
Acenas-me. De uma a outra encosta. Entre nós há um rio.