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(no subject)
rosas
innersmile
Gostei muito de ver ontem a reportagem sobre adolescentes homossexuais, no telejornal da Sic ontem à noite. Ao ver, por uma vez, uma imagem simpática, sem ser miserabilista ou paternalista, preconceituosa ou medrosa, sobre um tema relacionado com a homossexualidade. Comoveram-me aqueles jovens, nalguns porque me revi, noutros porque vi o que poderia ter sido. Mas confesso que o que mais me comoveu foi a mãe que não aceita a homossexualidade do filho. Tal como achei tocante o Sampaio admitir que se tivesse um filho homossexual teria um grande desgosto. Porque o que é verdadeiramente transversal e radical nesta coisa da homossexualidade, é precisamente a absoluta perplexidade da sociedade (das sociedades) perante um fenómeno que é tão antigo como o próprio homem. É qualquer coisa que ultrapassa a minha capacidade de compreensão, esta profunda aversão de todas, ou quase todas as comunidades humanas em relação não tanto aos homossexuais (só conseguimos odiar o que não conhecemos) as em relação à própria homossexualidade.
Por isso me comove aquela mãe que não consegue aceitar o seu filho tal como ele é. Comove-me a sua extrema fragilidade, a desorientação, o facto de, ao contrário de Sampaio, não conseguir sobrepor a racionalidade ao desgosto ou à aversão. Mas choca-me a sua incapacidade de amar o filho. De o amar, apesar de si. Não apesar do filho, da homossexualidade do filho, porque esse não é o verdadeiro problema daquela mãe, mas apesar de si própria, apesar da sua incapacidade de compreender.
Bom, mas, e esse era o ponto desta entrada, por uma vez conseguimos ver o tema ser tratado num telejornal, sem o ser de uma forma sensacionalista ou homofóbica, atendendo ao drama mas sem dramatizar, focando com a objectividade possível a vivência e os problemas de um grupo de pessoas. Que, apesar de ser uma minoria, existe, e não é tão minoritário como se poderia julgar. Que afecta pessoas e famílias. Que merece atenção apesar de ser uma minoria, ou talvez mesmo até por causa disso.

exposições
rosas
innersmile
Tarde de Domingo ao sol, na baixa. A baixa de Coimbra, ao Domingo à tarde, é um sítio diferente. Mais rural, mais enfeitado. Mais genuíno, de certa forma. Parece que estamos numa cidade estrangeira.
Bom, mas vamos ao trabalho (eheh).

Exposições novas no CAV. A de Malick Sidibé é muito interessante. Não tanto, ou não apenas, pelos temas, pela faceta documental de testemunhar sociedades na encruzilhada de fenómenos de aculturação. Mas sobretudo pelas próprias características do trabalho do fotógrafo: fotografias de pose, em que a relação entre o fotógrafo e o fotografado é tão intensa, e tão tensa, que é difícil discernir que é o sujeito e quem é o objecto da fotografia. Se toda a fotografia é trabalho de exposição, no trabalho de Malick isso é por demais verdade, na medida em que as fotos estão carregadas de intenções, de programas. Cada pessoa fotografada, sobretudo nas fotografias realizadas no estúdio do fotógrafo, apresenta-se perante a câmara com a intenção concreta de dar uma imagem de si, de passar para os outros uma determinada mensagem acerca de si próprio, como se dissesse “este sou eu”, ou, talvez com mais propriedade, “isto sou eu”! O facto de não sabermos se a composição de cada ‘personagem’ (a expressão é a anglo-saxónica ‘character’, dada a sua riqueza de sentidos) pertence ao exclusivo domínio do artista, ou se a uma real intenção do fotografado (como poderá indicar a referencia a certos objectos como sendo propriedade dos retratados) não diminui esta qualidade das fotografias de Malick, antes lhe acrescenta em mistério e em tensão (em matéria artística).

No programa Project Room, dois novos trabalhos, de Manuel Santos Maia e Ricardo Valentim. Referênia ao primeiro, que, partindo de referências e objectos familiares, constrói como que um projecto para uma memória. Pelo menos, essa foi a parte da instalação que achei mais interessante, a forma como o artista pega nos testemunhos de uma memória, no caso as fotos das casas construídas pelo seu antepassado, e constrói para elas um projecto, com desenhos, alçados, estudos, maquetes. Estes objectos (que, por coincidência ou não, têm uma correspondência na sala ao lado onde são apresentados os projectos a concurso para o Centro Cívico do Ingote) escapam à sua usual função de serem testemunhos de um projecto, de um programa, para se apresentarem como a arquitectura de uma memória.

Finalmente, no Edifício Chiado a I parte de uma retrospectiva de Gil Teixeira Lopes, com gravura e escultura, e a que se seguirá uma II, com escultura e pintura. Oportunidade para conhecer uma obra significativa, que não enjeita o compromisso social, onde fica patente a pluralidade de temas, de direcções e até de referências.