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o george e a prima
rosas
innersmile
Eu e a minha prima preferida tivemos, durante os nossos anos ‘formativos’ uma grande divergência: eu sempre gostei mais de rock and roll, do punk e da new wave, e ela sempre foi mais pop, lembro-me que consumia doses em barda da revista Bravo que, na altura, era em alemão, o que fazia com que a grande maioria das raparigas do meu tempo escolhessem a cadeira de alemão como opção, nos últimos tempos do liceu. Se nunca se interrogaram acerca da razão porque há tantas quarentonas e tantas trintonas a saberem falar fluentemente alemão, aí têm... Seja como for, eu a minha prima tínhamos grandes discussões sobre música, ou seja, nem eram bem discussões, porque ela, que sempre foi muito cool, achava que eu só gostava de música inaudível e não me ligava nenhuma, e eu, que sempre fui muito stressado (se bem que na altura ainda não tinha sido inventada esta palavra, mas já havia a condição a que ela se refere) achava um horror que me consumia o facto de uma das minhas pessoas preferidas gostar daquilo que na altura se chamava ‘música comercial’.
Em 1984, quando regressei de Londres, tinha-se operado um radical modificação em mim: pela primeira vez, tinha estado exposto a doses maciças de cultura pop, e, ainda que não tenha abandonado por completo o interesse por todas as áreas musicais, nomeadamente as mais (chamemo-lhes assim) exigentes, vinha totalmente rendido à música pop. Ainda hoje acho que poucas coisas há mais perfeitas do que uma boa canção pop. E que me faz ficar fascinado com determinadas canções que, para falar com franqueza, chega a ser embaraçoso dizer que se gosta.
Um dos nomes em que eu e a prima logo coincidimos, foi no do George Michael, ainda na fase Wham!, e muito por causa dessa pérola que era o Wake Me Up Before You Go-go, que foi a primeira canção que eu me lembro de ver no The Tube, um programa de televisão sobre música, que era apresentado pela malograda Paula Yates e pelo sempre vibrante Jools Holland. O sacana do George Michael escreveu algumas das mais perfeitas canções pop do nosso tempo, e não tenho muitas dúvidas que algumas delas ficarão nos anais (no pun intended) da música popular. E registe-se que o facto de uma canção pop ficar para a história é um feito apreciável, uma vez que a pop é por definição do domínio do efémero.
Para além do apelo irrecusável das canções, suponho que outras razões nos atraíam para o George Michael. A prima esteve longa e profundamente apaixonada por ele, uma paixão que a revelação da sexualidade do GM apaziguou, mas não estiolou. Quanto a mim, exceptuando aquela fase em que ele usava penteados que pareciam tirados dos anúncios a secadores de cabelo da revista Modas & Penteados, igualmente sempre o achei muito engraçadinho; além disso, e para aí desde o álbum Faith, o meu gaydar sempre me disse que o GM devia ser gay. Admito mesmo que tenha descoberto antes do próprio George Michael ter dado por isso, uma vez que ele, por essa altura, ainda namorava com mocinhas.
Uma tarde destas, lá estive com a prima a ouvir pacientemente o último disco do George Michael, Patience. Como sempre, muitas letras desconexas, daquelas que a gente não percebe de que é que ele está a falar, as baladas impecáveis intercaladas com os temas mais irresistivelmente funkies, o bom gosto dos arranjos, aquele tom todo ele muito suave e cool que o GM adoptou desde há uns anitos. Duas ou três boas canções, o que, quando se levam já vinte e tal anos a escrever canções pop, até que nem é mau. Depois, dá sempre um gozinho especial, ver temas assumidamente dedicados ao namorado, bem como as referências nas notas de capa. Aliás, há uma coisa que transpira deste disco, e que é uma certa sensação de liberdade, da tranquilidade que advém de não termos segredos, de podermos andar de cabeça descoberta, sem medos e sem vergonhas. O George bem pode agradecer àquele desagradável episódio com o polícia na casa de banho pública, o ter-se livrado do peso castrador e limitador do segredo. Está mais crescido, mais assumido, mais maduro, mais livre.
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