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american splendor
rosas
innersmile
Como numa cena em que Harvey se despe casualmente em frente ao espelho, olha para a sua imagem reflctida e comenta, já em banda desenhada: ‘It’s a reliable disappointment’.
Apetece ficar durante horas e horas a falar de American Splendor, o filme de Shari Sringer Berman e Robert Pulcini sobre Harvey Pekar. O filme é assim estimulante, de um modo criativo. Mas também é difícil, ainda a quente, analisar o filme. A verdade é que estive durante mais de hora e meia verdadeiramente 'pregado' ao ecrã, e neste momento a ideia que tenho do filme é assim uma espécie de 'bliss' mental, como se me tivesse estado durante muito tempo a fazer festinhas ao cérebro.
Se é verdade que parte significativa do interesse do filme vem da personagem (tratemo-la como tal ) de Harvey, a verdade é que parte não menos significativa vem de Paul Giamatti, que interpreta Harvey, e sobretudo do próprio filme, da forma como ele está narrativamente estruturado, do argumento que destila humos por todos os lados, mas um humor subtil (bom, por vezes não tão subtil assim), ácido.
O filme fez-me lembrar o Man on The Moon, do Milos Forman. Pelas coisas mais óbvias, claro: o humor, a bio-pic, o Paul Giamatti, a impressão de que as personagens são sempre uma espécie de aliens maiores do que a vida. Mas também porque, tal como Man On The Moon, também American Splendor é atravessado por uma tristeza imensa e sempre à beira do insuportável; aliás, não fosse a comédia, e estes filmes seriam impossíveis de visionar, tal a dimensão trágica do olhar.
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everything in its right place
rosas
innersmile
O jazz é como um icebergue a que se aplica o princípio socrático de que à medida que vamos sabendo mais, maior é a consciência da vastidão do que não conhecemos. E mesmo à superfície do icebergue, só vamos realmente conhecendo os pequenos pontos onde vamos aportando.
Eu conheço muito pouco. Mas tenho umas paixões assolapadas: o John Coltrane (acho que foi o meu primeiro amor no jazz, e não há amor como o primeiro), as cantoras (a Ella, a Billie, a Petra), o Thelonious Monk, o Miles Davis e, de um modo geral, os pianos (o Michel Petrucciani, o Fred Hersh, o Keith Jarret, o Bill Evans, o Oscar Peterson, o Pinho Vargas, o Mário Laginha, e outros; aliás, agora com a pancada do Alfred Brendel que se junta ao Glenn Gould, na música clássica, cada vez me convenço mais que sou do tipo ‘pianeiro’).
E o Brad Mehldau, de quem comprei hoje o último cd, Anything Goes, e o sexto a rodar cá em casa. Acho que comprei o meu primeiro cd do BM por ele ser pianista, jovem e bonito. E fui insistindo porque ele fica sempre muito giro nas capas. Ora, no jazz, o tempo é uma coisa tramada no desenvolvimento e aprofundamento de uma relação. Podemos ouvir de passagem uma coisa e ela não se agarrar a nós, mas se deixamos o tempo actuar, é inevitável que ela nos penetre sob a pele e se vá instalando pelo meio dos nossos músculos, espalhando-se pela corrente sanguínea, até nos preencher por completo.
Há sempre uma razão para os discos do BM serem especiais. Pode ser o It Might As Well Be Spring. Ou o Blackbird. Ou Monk’s Dream. Ou o Cole Porter. Ou os Radiohead. Neste Anything Goes, como se deduz do título, há Cole Porter, há Radiohead (Everything In It’s Right Place), há o Still Crazy After All This Years, do Paul Simon, há o I’ve Grown Accustomed To Her Face, do My Fair Lady, há Smile, de Charles Chaplin. Entre outras. Tudo versões, que se há coisa que não há neste disco, ao contrário do que é habitual, é originais do BM.
Comparativamente com o anterior, é um disco mais simples, de regresso ao trio essencial (BM, Larry Grenadier no contrabaixo e Jorge Rossy na bateria), sem as ‘ousadias’ e as colaborações de Largo. Um disco muito melódico, muito suave, arranjos subtis e requintados. Um disco a pedir finais de tarde de Verão.
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