?

Log in

No account? Create an account

mal nascidos peões
rosas
innersmile
A minha experiência diarística e sobretudo de weblogger, ensinaram-me esta verdade comezinha de que as entradas passadas são ‘yesterday news’, já não interessam a ninguém, e por isso não vale a pena retomá-las. Essa é a primeira razão porque raramente faço entradas a comentar entradas anteriores (o que não obsta a que, por razões de senilidade precoce, esteja sempre a falar das mesmas coisas...). A outra é porque o innersmile não é um lugar de debate e polémica. Ou melhor, não é um lugar de contraditório, onde se façam entradas com petição, contestação e tréplica. Claro que há as ocasionais e saudáveis (e sempre desejáveis, garanto) sessões de pancadaria nos comentários, mas o que eu não faço, sobretudo por falta de paciência, é entradas a esgrimir argumentos e contra-argumentos ou a esclarecer e/ou limpar entradas anteriores.
Não vou por isso acrescentar nada ao que escrevi aqui há dias sobre as polémicas declarações de Mário Soares acerca da necessidade de negociar com terroristas. O que está escrito está escrito, e, como diria o grande (o enorme) Palma, ”o que lá vai já deu o que tinha a dar”. Mas, dos poucos comentários que o post mereceu, houve um, do/a JB, que me merece alguma reflexão.
Para dizer que, em relação ao processo de descolonização, não me sinto, de todo, vítima, e muito menos vítima de alguém em especial, ou de algum grupo. Não é, pois, capacidade de perdoar que se trata. Quando muito sinto-me um peão da história, alguém que teve a oportunidade (eu ia escrever o privilégio, mas não sei se a expressão é a adequada) de viver uma página da história de Portugal. Dá-me um certo gozo saber que, quando no futuro os livros de história se referirem ao fim do império português e ao êxodo dos portugueses espalhados pelo mundo, eu vou lá estar na fotografia de grupo. E ainda que hoje, a esta curta distância, algumas pessoas achem (com ou sem razão, não é isso que está em causa) que essa página é particularmente negra, posso garantir que quando ela entrar nos manuais de História de Portugal, vai ter exactamente a mesma cor das outras páginas todas.
Como disse, não me sinto vítima, e menos ainda de alguém em especial. Acredito, ainda que possa ser um pouco determinista, que os ventos da história são imparáveis. São os ventos da história que erguem e desmantelam muros, que sustentam e arrasam ditadores, que constróem e pulverizam impérios. Quando a história empurra para um lado, só os loucos (e um ou outro raro, raríssimo, visionário) é que persistem em contrariá-la. E os ventos da história são, claro, um misto de muita coisa, do sentir e da vontade popular, do acaso, da evolução dos acontecimentos, dos traumas e dos orgulhos colectivos, do estado da cultura e das mentalidades, dos interesses também, naturalmente, da geo-política, das estratégias e das diplomacias. O império ultramarino português acabou, há 30 anos, não por acção de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, nem sequer por se ter perdido uma guerra. Acabou porque os ventos da história sopravam já noutra direcção. Acabou porque apodreceu por dentro, porque o mundo já estava noutra, porque o mundo estava já numa era de novos impérios, de um género para o qual Portugal não sabia ou não conseguia ou não estava preparado para suportar. Eventualmente poderia ter acontecido de outra maneira? Talvez. Mas se tivesse sido de outra maneira, não éramos nós, estes “nós”, que estávamos aqui hoje, éramos outros, éramos de outra maneira, diferentes e diversos.

Talvez uma certa distanciação em relação à questão da descolonização provenha do facto de eu ser miúdo nessa altura. Mas vem também dos meus pais, da forma como eles lidaram com essa inegável adversidade que foi recomeçar a vida do princípio quando já se tinha idade para a ter metade construída. Os meus pais são ambos naturais de Moçambique (os meus avós maternos já o eram) e a minha mãe nunca tinha vindo a Portugal antes de ter vindo definitivamente em 1977. Têm muitas saudades de Moçambique, e da vida que viveram em Moçambique: da infância e da juventude passadas numa altura em que ainda havia muito pioneirismo, da vida familiar que foram construindo, e cujo projecto naturalmente passava todo por aquela que era a terra deles, onde sempre tinham vivido e onde teriam intenção de viver para sempre. Mas tendo saudades da sua vida, do seu passado, nunca foram saudosistas, e nem continuam a ser mesmo agora que a velhice vai suavizando a mola do sentido crítico. A minha ida a Moçambique no ano passado, veio reavivar muitas lembranças, muitas histórias (histórias fantásticas, deliciosas), mas, para falar com franqueza, não reabriu nenhuma chaga porque, sinceramente, se feridas houve, foram há muito, e pelos vistos bem, cicatrizadas.
Também por isso, caro/a JB, e apesar de compreender perfeitamente o que queres dizer, e compreendê-lo com todo o respeito de que sou capaz, e que devemos àqueles que estamos em melhor posição de perceber, não me considero vítima de coisa nenhuma. Peão da história, sim, como já disse. Mais um que lá estava no meio da mole, e que levou as chapadas que lhe acertaram e de que não se conseguiu desviar a tempo. Mas não há vítima sem algoz, e francamente nunca reconheci nos rostos dos homens do meu tempo, mesmo daqueles de quem estou mais distante ou em posição mais conflituosa, a face brutal de um carrasco.

Isto de falar em peão lembrou-me um poema do Reinaldo Ferreira. Agora que tenho feroz e comovedora concorrência na divulgação da poesia de Reinaldo, aqui fica um dos seus poemas, dedicados a todos os colegas de ‘peonagem’.

Na vida somos iguais
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que as fez.

Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.

Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.