March 21st, 2004

rosas

both hands waving

"Mozambique is different. It's lighter, less regimented, more chaotic, more passionate, more romantic (the climate helps), more plural. It has better rhythm. I suppose wht I'm trying to say is that the Portuguese are temperamentally more african than the British."

Esta passagem é de um livro cuja leitura terminei hoje, WITH BOTH HANDS WAVING, de Justin Fox, que mandei vir da Amazon.co.uk, e que relata uma viagem de carro feita por um grupo de jornalistas, através de Moçambique e ao serviço de uma revista de viagens sul-africana.
O trecho citado refere-se às principais características de Moçambique no contexto da região da África Austral, por oposição a uma certa rigidez e conservadorismo dos países vizinhos, relacionando essas diferenças com as caracteristícas dos povos colonizadores: os portugueses no caso de Moçambique, claro, os britânicos no caso de todos os seus vizinhos.
O livro não está isento de algumas falhas: por vezes, parece-me que alguns relatos históricos apoiam-se mais em 'estórias' do que propriamente em factos, em parte por causa daquele preceito (de quem? do Mark Twain? de um filme?) de que quando a lenda é melhor do que os factos, imprima-se a lenda!, mas também, pareceu-me, porque por vezes era necessário apaziguar um certo desconforto de consciência. Por exemplo, uma história ligada à utilização de raparigas na construção da catedral de Lourenço Marques pareceu-me muito pouco provável; os meus pais disseram-me que não era verdade, mas confirmaram que as rusgas levavam para a prisão todas as raparigas que andassem na rua sem identificação, por prostituição. Seja como for, uma das coisas interessantes do livro é que mistura o relato da viagem, e a descrição do país e das paisagens, com informações sobre a história, recente e antiga, de Moçambique.
É um livro interessante, divertido, aventureiro e bem escrito, que nos permite acompanhar pari passu as aventuras e desventuras que implicam atravessar por estrada, de Sul a Norte, um país que estava, à data em que o livro foi escrito, recém saído de uma guerra civil destruidora, e à borda da ruptura total no que se referia a infra-estruturas e organização.
Justin Fox e os seus colegas de viagem (dos quais uma rapariga e um nova-iorquino) vivem toda a espécie de percalços, acampam em condições que, mais do que difíceis, rondam por vezes o bizarro, encontram gente pouco recomendável, apanham doenças (a malária, claro, mas não só). Mas o que mais se distingue de tudo o resto neste livro, é, por um lado, a natureza quase intacta, por causa de trinta anos de guerra e de catástrofes, que impediram a exploração turística dos recursos naturais; por outro, a forma como essa natureza intacta é atravessada por uma memória histórica e monumental riquíssima, de todos os povos que habitaram e visitaram o país, nomeadamente a herança da presença longa dos portugueses; finalmente, a simpatia e a bonomia do povo, que consegue sarar feridas rapidamente e revelar um sentido de humor notavel, e a cujo hábito de acenar com as duas mãos o livro vai buscar o seu título.

Pessoalmente, o que mais gostei foi, naturalmente, dos trechos que referiam lugares e paisagens onde chega a minha memória, quer a da infância, quer principalmente a da visita recente. Gostei particularmente das páginas sobre a Ilha de Moçambique, que reavivaram as impressões da minha visita, e enriqueceram a minha memória da Ilha. Referências a sítios, a lugares, a ruas, a casas, que estão ainda vivíssimas na minha memória. Aliás, é significativo que seja a Ilha, de todas as andanças e paragens, que merece maior número de páginas do livro: o próprio lugar, por ser uma experiência de tempo e espaço fora de comum, obriga a essa demora, a essa suspensão. Na Ilha, o tempo pára, e o mundo, lá fora, detém-se quase ao ponto de deixar de respirar.
Acho que já escrevi isso por aqui, mas há uma forte impressão de que, se é verdade que voltamos da viagem enriquecidos com tudo o que vivemos e sentimos, também é verdade que regressamos dela mais pobres, porque há pedaços de nós que ficaram para sempre presos nesses lugares onde, por um segundo apenas, vivemos a feliz ilusão de que fomos totais e completos.