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fora da ordem
rosas
innersmile
Começo já por dizer que tenho simpatia pelo Mário Soares. Não sou ‘soarista’, não votei nele muitas vezes (só me lembro de ter votado uma vez, na primeira eleição presidencial em que foi candidato), não acho que ele seja o super-Mário (para mim, Mário só há um, o Viegas e mais nenhum!), acho que ele partilha de uma série de vícios comuns na classe política (o nepotismo, o caciquismo, muito manobrismo, que no caso dele parece ser particularmente tentacular). Mas reconheço-lhe uma importância decisiva em dois ou três momentos da história recente do país. E, sobretudo, admiro-lhe o instinto e a visão: na política, é certo, mas também de forma geral em relação ao mundo, ao pulsar do mundo. Mas do que uma vez, muitas vezes mesmo, ouvi alguma coisa que ele disse ou li alguma coisa que ele escreveu e ‘aquilo’ iluminou-me o raciocínio, assim tipo ‘é pá! este gajo tem razão, é mesmo assim como ele diz’. Sobretudo admiro o facto de apesar de ele estar a ficar velho, não perder o olhar lúcido com que ‘lê’ o mundo, mesmo quando enviesa essas leituras para as poder usar como armas de combate político, quando força e torce as coisas para poder dar cacetada num dos seus inimigos de estimação. (Registe-se o esforço que eu fiz para não dizer que uma das coisas que mais gosto no Mário Soares é a ‘porrada’ que ele dá ao beato Portas. oops...)
Tudo isto a propósito das afirmações que ele fez de que vamos ter de negociar com os terroristas porque não os vamos conseguir esmagar. Note-se que apenas ouvi a frase cujo sentido é, muito aproximadamente, este, não sei o contexto em que foi dita nem o fio de raciocínio que a motivou. Entretanto, ontem à noite terá dito, em resposta a uma pergunta se então também teria sido razoável negociar com Hitler, que sim, desde que com isso se poupasse um ano de guerra. Curiosamente, à mesma hora, o Durão Barroso respondia na rtp que negociar com terroristas era o mesmo que negociar com os nazis.
Bem, quanto a esta questão da negociação com o Hitler, acho que a resposta do Mário Soares não faz sentido. Ou melhor, a questão não faz sentido. Depois de tudo o que sabemos hoje sobre a dimensão de horror do nazismo, depois de sabermos que o nazismo não foi ‘apenas’ um sonho louco de guerra e conquista, mas foi um pesadelo de genocídio e supremacia rácica, não faz sentido falar em negociação. Negociação implica compromisso, implica cedências, e não percebo como seria possível convivermos hoje em dia com a memória ‘negociada’ dos campos de concentração.
Mas o que eu quero dizer é que não faz sentido, com tudo o que sabemos hoje, pôr essa hipótese. A questão é: faria sentido em 1944 ter negociado com Hitler para abreviar o final do conflito? Não sei, francamente não sou capaz de responder. Mas acredito que, desde logo, Hitler nem sequer estava disposto a negociar, nem nessa altura nem em nenhuma outra, porque na sua paranóia de horror e predestinação não havia o mínimo lugar para a dose de razoabilidade que a negociação sempre exige.
Mas, e então quanto às declarações de Mário Soares sobre a admissibilidade de negociação com os terroristas? À primeira vista, e ainda sob o estado de choque do ataque de Madrid, dizer isto, para além de politicamente incorrecto, parece ser um sinal de medo e de capitulação face a quem usa o horror e a cobardia como arma. Inadmissível, parece.
Mas Soares não é medroso. E, além disso, costuma revelar uma clarividência quase ‘oracular’ na sua visão do mundo. E eu acho que o ponto de Mário Soares é que o terrorismo não pode mais ser analisado como um epifenómeno, como uma degenerescência das nossas sociedades (nos casos do terrorismo europeu) ou como uma expressão de martírio religioso, de guerra santa (como no caso do terrorismo islâmico). O terrorismo, hoje em dia, é um fenómeno político. Quando acabou a guerra fria, sabíamos todos que vinha aí uma nova ordem mundial. Ora bem, é desta nova ordem que o terrorismo faz parte. Não tenhamos ilusões: o terrorismo é financiado, e muito provavelmente, é financiado por quem se senta à mesa conosco. Por isso, porque é organizado, porque faz parte de um qualquer sistema económico, dificilmente se conseguirá esmagá-lo. Há algum paralelismo com a questão da droga: o problema da droga não são os drogados, mas sim o tráfico internacional, que dá de comer a muitas famílias e enriquece de forma obscena uns poucos bolsos. Também as políticas de combate à droga sempre apostaram no esmagamento, na aniquilação, com o fracasso que se sabe. Apesar de todas as dificuldades, era ainda possível aos governos ocidentais lidar com os ‘seus’ terrorismos de cariz ideológico e/ou nacionalista. Não nos arrepiámos quando o governo inglês negociou com os (vários) agentes do terrorismo da Irlanda do Norte. A Alemanha e a Itália conseguiram ‘esmagar’ as hidras do terrorismo radical dos anos 70 e 80.
Mas as nações e os estadistas têm de procurar a melhor forma de lidar com o terrorismo da nova ordem mundial. Não penso que passasse pela cabeça de Mário Soares os governos sentarem-se com as células terroristas que estão aí, infiltradas na normalidade quotidiana das nossas cidades. O alcance das palavras de Soares, julgo eu, tem a ver com esta necessidade de enquadrar politicamente este terrorismo que cada vez mais surge como uma espécie de ‘death business’ que visa criar instabilidade e fragilizar as nossas sociedade da afluência. ‘It’s the economy, stupid’, como dizia o outro.
Tudo isto para dizer que as palavras de Soares me perturbaram, mas, como sempre, me puseram a pensar. Já não me parece muito inteligente descartá-las para o cesto das gaffes e das enormidades. Como escreveu alguém recentemente, e cuja fonte não consigo precisar, nunca é má ideia voltarmos o olhar para onde Mário Soares está a olhar.