March 16th, 2004

rosas

girl with a pearl earring

Não me lembro exactamente porquê, mas tenho a vaga ideia de Girl With a Pearl Earring ter sido recebido com alguma frieza, por parte da crítica e do público. Com efeito, a única coisa que me lembro de se ter falado acerca do filme tinha a ver com a (justíssima) nomeação de Eduardo Serra para o oscar da melhor fotografia.
Eu achei o filme muito agradável. Ok, não é uma obra-prima, do ponto de vista narrativo é um bocado preso e pesado, é mais ou menos previsível. Mas de qualquer forma há duas ou três notas que o tornam um filme interessante.
Em primeiro lugar, é um filme bonito, com uma fotografia realmente lindíssima, que visa criar o efeito pictórico adequado ao tema do filme. Não sou especialista em belas artes, mas julgo que a principal marca distintiva da pintura de Vermeer é a relação entre a cor e a luz, ou seja a forma como ele desenvolveu uma coloração que captasse, não tanto o efeito da luz nas superfícies (nos rostos, nas roupas), mas a essência a própria luz, a forma como a luz poderia ser representada. E o trabalho de Eduardo Serra neste aspecto é realmente notável, o filme desenvolve-se sempre num plano de iluminação, é sempre a procura da luz adequada para o plano.
Depois, o filme é bonito ainda porque nos permite ver uma espécie de ‘making of’ de uma pintura (esta ideia não é minha, tenho ideia de a ter lido algures), não só no que diz respeito ao tema da pintura, mas sobretudo ao próprio processo de trabalho, o estudo das poses, a selecção e o fabrico das tintas. Aliás, as minhas cenas preferidas do filme foram as passadas no sótão, espécie de laboratório-fábrica onde Vermeer desenvolvia os aspectos mais ‘técnicos’ do seu trabalho.
Com este prende-se outro aspecto que achei interessante do filme: foi esta capacidade de a rapariga penetrar no universo ‘técnico’ do pintor que primeiro atraiu Vermeer, e que o leva a dizer que escolheu uma criada analfabeta para modelo simplesmente porque ela ‘percebia’. Num meio em que toda a gente que o rodeava nutria um interesse meramente utilitário pelo seu trabalho (o reconhecimento da genialidade não era mais do que uma mais-valia mercantilista) a rapariga era a única que partilhava o olhar fascinado. Digamos que no aspecto narrativo ficcional, este foi o ponto mais interessante do filme.
Outra coisa que o filme explora bem é a questão do lugar da sedução e da sensualidade em sociedades muito rigorosas e calvinistas. A tempestade que se desenvolve no seio da família com a relação entre o pintor e a modelo, não é gerado por qualquer relacionamento de carácter sexual, ou seja entre Vermeer e a criada não acontece nada. O que gera os ciúmes da mulher do pintor, a transgressão que tudo desequilibra, é “apenas” o subtil fascínio que Vermeer reconhece da criada. Ou seja, por mais estritas e apertada que sejam as regras da convivência, a capacidade de as pessoas se fascinarem mutuamente, de se seduzirem, de comungarem a transgressão, tem essa característica ‘infiltrante’, é como a água (ou como a luz?) que consegue encontrar sempre o caminha de saída.