March 15th, 2004

rosas

conto

Há uma luz que se mantém ainda acesa na fachada sombria do prédio. Já não passa ninguém na rua. Suspensos à tua frente os faróis vermelhos do último autocarro que passou antes da madrugada. Estás sentada na berma do passeio, e és uma cidade assassinada. Abandonada pelos homens, os teus temores são os teus filhos. Sonhas com o paraíso do arrabalde, como se o verde fosse mais verde depois do fim da estrada, como se o céu pudesse nascer mais azul amanhã, como se houvesse fim para a chuva fina que te enregela o sangue. Estás perdida. És uma mulher desertada, a quem pouco mais resta do que o consolo das lágrimas que te esborratam a pintura. Tens as tuas roupas, que guardas como se fossem um relicário, a memória de um monumento que explodiu há muito tempo, o sudário que enxugou as lágrimas de outras mulheres. Tens as chaves afundadas na carteira, que riscam o esmalte da tuas mãos tão pequenas e desesperadas, tão privadas de ternura, tão suave a tua pele antes da rugosa acidez desta noite. Tens um par de óculos escuros que agora usas colado à nuca. Tens um cigarro interminável que se escapa em fumo por entre os dedos e por entre os lábios. Tens os olhos marcados de lágrimas, já disse? Os teus olhos estão tão fundos que são duas crateras iluminadas de breu. Mas tudo isso que tens não basta para te suavizar a vertigem do vazio, o sangue que te escorre pelos braços nus, os sapatos sem alma que te gretam os pés descalços. Deixaram-te em ferida, e tu agora estás suspensa entre o coágulo de sangue e a memória futura da cicatriz. És uma chaga que ainda não desabrochou.

Levantas-te num passo desamparado. Cambaleias, como se o teu corpo fosse um esboço desajeitado, um esquisso num papel amarrotado. Tentas atravessa a rua, tens a vaga promessa de que há uma janela acesa e que por isso haverá ainda redenção e aconchego, mas não consegues atravessar a rua. Há uma corrente forte que te repele e te empurra de encontro aos muros. Vacilas. Tacteias as paredes, à procura de algum desvão. Sabes que te seria mais fácil desceres a rua, deixares-te ir, rolares aos safanões pela passeio até te esbarrares de encontro a uma árvore, ou um caixote de lixo, ou os pneus de um automóvel. Mas sabes que se te deixasses ir, te afastarias irremediavelmente da luz que te acena. Tentas segurar-te ao ferro de um portão, à grade de uma cerca, mas rasgas as mãos.

Estás agora tombada sobre o passeio, és uma mulher murcha e exangue, espezinhada pelos cães que te farejam as feridas. Tentas fixar o olhar na luz que brilha do outro lado da rua, mas ela é uma grinalda que gira e rodopia à tua frente. Tu sabes que todo o mal está em ti, que fora de ti só há a cidade, que és tu que estás ébria como uma mochila grávida de explosivos.

Chove agora com mais força. Há uma luz que se apaga.

Há-de amanhecer, esse teu desespero. Há-de ser outra vez feito de manhãs ensolaradas. Há-de andar de braço dado com o canto dos pássaros, que ouves quando atravessas o jardim à procura do dia. Há-de caminhar pelas ruas, de novo enfeitado de esperança. Há-de estar limpo, como uma rua lavada pela água da chuva.

Tu estás vazia, desterrada, fragmentada como uma explosão. Húmida por dentro e gretada à superfície. Mas ouves tilintar lá em cima, ao topo da rua? Ouves as campainhas que germinam da calçadas e parecem guizos feitos de ouro? Ouves os sinos que se espalham pelos telhados e descem pelas paredes e pelos muros como ondas de manhã? Ouves quem te chama?
rosas

cuatro puñales

MUERTE DE ANTOÑITO EL CAMBORIO

A José Antonio Rubio Sacristán

Voces de muerte sonaron
cerca del Guadalquivir.
Voces antiguas que cercan
voz de clavel varonil.
Les clavó sobre las botas
mordiscos de jabalí.
En la lucha daba saltos
jabonados de delfín.
Bañó con sangre enemiga
su corbata carmesí,
pero eran cuatro puñales
y tuvo que sucumbir.
Cuando las estrellas clavan
rejones al agua gris,
cuando los erales sueñan
verónicas de alhelí,
voces de muerte sonaron
cerca del Guadalquivir.
*
Antonio Torres Heredia.
Camborio de dura crin,
moreno de verde luna,
voz de clavel varonil:
¿Quién te ha quitado la vida
cerca del Guadalquivir?
Mis cuatro primos Heredias
Hijos de Benamejí.
Lo que en otros no envidiaban,
ya lo envidiaban en mí.
Zapatos color corinto,
medallones de marfil,
y este cutis amasado
con aceituna y jazmín.
¡Ay, Antoñito el Camborio,
digno de una Emperatriz!
Acuérdate de la Virgen
porque te vas a morir.
¡Ay Federico García,
llama a la guardia civil!
Ya mi talle se ha quebrado
como caña de maíz.
*
Tres golpes de sangre tuvo
y se murió de perfil.
Viva moneda que nunca
se volverá a repetir.
Un ángel marchoso pone
su cabeza en un cojín.
Otros de rubor cansado
encendieron un candil.
Y cuando los cuatro primos
llegan a Benamejí,
voces de muerte cesaron
cerca del Guadalquivir.


- Federico Garcia Lorca, Romancero Gitano