?

Log in

No account? Create an account

bom vento
rosas
innersmile
A vitória do PSOE nas eleições espanholas foi deveras surpreendente. Claro que os atentados de quinta-feira passada influenciaram o resultado das eleições, agora o que não me parece muito relevante é especular em que sentido, se favoreceram algum dos partidos e de que maneira. O que me parece inegável é que o clima de extrema comoção que se viverá em Espanha teve de influenciar as eleições.
As últimas 72 horas provaram que a Espanha é grande. Desde logo porque perante um horror tão grande, não se deprime, reage com firmeza, com indignação, cerra o rosto e vem para a rua mostrar que não tem medo. Depois, porque usou um direito de cidadania, o mais digno deles todos, o direito de votar, para mostrar que os atentados não põem em causa a solidez política do país.
Não sei se o resultado das eleições significa que houve tentativa de manipulação da opinião pública por parte do governo e a correspondente reacção negativa por parte dos eleitores. O que eu acho notável é que os espanhóis, na madrugada a seguir à tragédia, quando ainda há corpos por identificar nos hospitais, quando ainda não é completamente clara a autoria dos atentados, quando tudo ainda é muito incerto, quando se está ainda em estado de choque, o que eu acho notável, dizia, é que os espanhóis, nessas circunstâncias, ao invés de optarem por se refugiarem num resultado mais seguro, mais previsível, escolhem a mudança. Ou seja, só o facto de não terem tido medo, nas circunstâncias mais difíceis que um país pode viver, de mudar, mostra que também por isso a Espanha é grande.

Este resultado, como se deduz, aumenta a minha admiração pelo país vizinho. Para além de tudo, agrada-me que um grande país decida pôr termo à vaga de conservadorismo político que tem marcado os governos da Europa. Mas confesso que tinha muito curiosidade em ver Mariano Rajoy à frente do governo de Madrid. Julgo que a hipotética homossexualidade de Rajoy já ultrapassou a fase do rumor, do boato, da maledicência. Recentemente, a revista Zero fez uma capa com a cara de Rajoy e o título Outing, interrogando, com indisfarçada candura, se um homossexual podia chegar ao lugar de presidente do governo. Não sei se Rajoy alguma vez se referiu ao facto e os termos em que o terá feito. Por outro lado, julgo que o assunto nunca fez parte das agendas político-partidárias, nem foi usado como arma de campanha. Por isso, acho que seria interessante acompanhar o curso dos eventos, caso Rajoy fosse chefe de governo. Seria interessante ver como os colectivos lgbt espanhóis lidaria com o facto. Seria interessante saber se, e de que forma, haver um chefe de governo de um dos grandes países da Europa teria influencia no processo de luta pelo reconhecimento à plena cidadania (e a plena cidadania também se traduz por não ter receio nem vergonha de se mostrar o que se é) dos cidadãos homossexuais europeus. Isto tudo, obviamente, para além do enorme gozo de saber que o chefe de governo de um dos maiores países da Europa era ‘marica’.