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Fui com a minha mãe ver 'A Educação de Rita', a peça de Willy Russel cuja adaptação ao cinema valeu, nos anos 80, ao Michael Caine e à Julie Waters nomeações para os oscars para melhor actor e actriz. A peça é um 'sure shot', dificilmente pode falhar, e esta encenação de Celso Cleto tem a qualidade de manter o dispositivo cénico no mínimo, deixando à dramaturgia e aos actores toda a responsabilidade pelo desenvolvimento do espectáculo. Victor de Sousa é um grande actor de palco, e isso sente-se logo e sempre. Quando, já perto do final, os microfones auxiliares falharam, o registo de VS adaptou-se quase espontâneamente às novas condições e a sua voz não amplificada fez-se ouvir em toda a sala. Já a Sofia Alves vem muito marcada pela saturação da sua presença nas novelas da tvi, e é impossível esquecermo-nos disso. Talvez seja muito injusto, mas é o preço que se paga por se ficar demasiado tempo preso aos pastelões melados e insuportáveis que poluem a pantalha. Mesmo assim, tem uma certa presença em palco, apesar de lhe faltar a dose de histrionismo que o papel precisa. Mas também, não é Julie Waters quem quer, não é verdade?
Dado o protagonismo televisivo dos protagonistas, a audiência era predominantemente feminina, e constituída por senhoras, arranjadas, penteadas, perfumadas e acompanhadas pelos maridos em versão sport chique ou gravata regulamentar.
A minha mãe adorou, estava feliz, e isso foi o mais importante.

Hoje na Feira do Disco de Coimbra comprei a Ópera do Malandro, do Chico Buarque, que estava na minha wish list há séculos. Aliás, nunca tive o disco, nem em vinil, apesar de o conhecer muito bem, desde esse ano longinquo (1979) em que fiz o ano propedêutico e o Nuno nos contaminou a todos com o seu entusiasmo por esta obra-prima do Chico Buarque. É um disco extraordinário, o Chico foi (ou é, nem sei) um grande compositor e um letrista extraordinário, muito virtuoso, capaz de criar letras (poemas) com uma densidade narrativa muito grande.

Esta entrada foi escrita com um olho no computador e outro na televisão, no segundo canal, para tentar não perder o fio à meada de um documentário excelente, Something To Live For, realizado por Charlotte Zwerin, que percorre, com imagens e gravações inéditas e um bom gosto fora de série, a vida e a carreira de Ella Fitzgerald.
Para além do interesse informativo e documental do filme, sempre a oportunidade de ouvir Ella a cantar como se respira, como se a música, as canções, a extraordinária canção popular, fosse o sopro de ar que acende a vida.
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Algumas coisas sobre as quais me tem apetecido escrever aqui no innersmile, mas ando com pouca disponibilidade para arrumar as ideias e para as passar ao papel. É um dos meus dilemas com a escrita: preciso de ócio, de preguiça, para escrever, e quando o ritmo do tráfico quotidiano é mais intenso não consigo escrever. Mas, por outro lado, quando tenho ócio mais do que a dose recomendada, começa-me a faltar o estímulo para escrever, começo a ficar demasiado empapado em 'fare niente'.

Outra coisa interessante é que muitas desses assuntos que me apetece comentar, tomei conhecimento deles através de outros blogs. É sintomático, que a blogosfera comece a ser uma fonte de informação relevante.

Não comentei, por exemplo, dois exemplos de portugal no seu melhor: a história de violência futebolística do autarca de Marco de Canaveses e o veto individual e pessoal do vereador da cultura de Coimbra à proposta de nomear uma rua da cidade com o nome de Aristides de Sousa Mendes. Ambas as situações partilham, ainda com níveis de gravidade diferentes, de serôdios casos de abuso de poder, de poder local. E em ambos os casos o que me choca é a passividade dos restantes agentes do poder político. Ninguém protesta, ninguém lhes puxa as orelhas, ninguém os manda sentar no banquinho. Ou seja, aquilo que à primeira vista pode passar por excesso de voluntarismo por parte de alguns autarcas, pode muito bem afinal ser a própria essência do exercício de poder, tal como está a ser praticado.

Não fui espreitar ao Independente a lista das personalidades da política, da cultura e do desporto, que fizeram parte daquela espécie de 'line up' fotográfico que o ministério público organizou para as crianças abusadas identificarem possíveis pedófilos. É engraçado, mas não tive essa curiosidade, não me mereceu o mínimo interesse saber quem fazia parte da lista. Mas não percebo o critério jornalistico de quem decidiu publicar tal lista. E sobretudo não se percebe o critério do MP de escolher aquelas pessoas para o 'line up'. Porquê estas e não outras?

A discussão sobre o aborto. É assunto acerca do qual não consigo ter uma opinião muito clara. Qualquer decisão de direito, é sempre uma decisão sobre um conflito de interesses e sobre qual, desses interesses em conflito, o direito acha que, em determinado momento, merece uma protecção suplementar, ao ponto de sacrificar o interesse com ele conflituante. A minha questão é que tenho muito dificuldade em perceber, no meu raciocínio, qual o interesse que, neste momento, deve ser privilegiado. Acho, no entanto, que, apesar de tudo, sou mais sensível a uma solução que não penalize mais as mulheres que se vêm obrigadas a recorrer ao aborto. Mesmo que, porque o direito nunca deve descer ao nível do individual e concreto (sob pena de se transformar num instrumento de arbitrariedade e abuso de poder), para não penalizar mulheres que recorreram ao aborto por absoluto estado de necessidade, se tenha de não penalizar outras que apenas recorreram ao aborto porque não tiveram as precauções adequadas.

Finalmente, a adopção por parte dos homossexuais, que tem andado aí pelas colunas dos jornais. Enquanto homossexual, não aceito o argumento de que, em nome da dignidade e da integridade das crianças, se aceite um tratamento descriminatório dos homossexuais, negando-lhes a possibilidade (para aquelas almas mais sensíveis que não gostam de ouvir falar no 'direito' à adopção) de adoptarem. Precisamente porque, enquanto homossexual, me sinto tão capaz de criar e educar uma criança como qualquer outra pessoa.
Mas tenho de admitir que, a outro nível, tenho algumas dúvidas. Dúvidas, precisamente, ao nível do direito, das mentalidades, e da relação do direito com o 'estado mental' de uma determinada sociedade. Acho (mas só acho, não tenho grandes certezas) que nem os homossexuais nem a sociedade em geral está ainda no ponto em que a adopção pode ser vulgarmente aceite sem colocar grandes problemas ao futuro dos principais interessados, ou seja, as crianças.
Quanto aos próprios homossexuais porque acho que ainda têm de lidar com tantas dificuldades, tantos problemas, tantos obstáculos, que se calhar ainda não têm a disponibilidade, e até talvez as condições de estabilidade afectiva, para se entregarem a essa tarefa hercúlea de responsabilidade que é fazer desenvolver outro ser humano. Não porque sejam promíscuos, ou porque são anti-naturais ou porque as criancinhas vão todas crescer para se tornarem 'supé-bixas'. Isso são típicos argumentos homófobos, próprios de quem não entende a diferença e por isso não é capaz de lidar com ela. Não, as minhas dúvidas são de outro nível. Prendem-se, por exemplo, com a questão da visibilidade. Não me parece que pessoas que, pelos motivos mais compreensíveis, têm de conduzir as suas vidas com alguma precaução e discrição, tenham a maior das disponibilidades para assumir todos os riscos inerentes à paternidade. Acho que os homossexuais (e é evidente que estas generalizações são sempre perigosas) ainda têm um percurso a percorrer no processo de afirmarem, com luta, com sacrifícios, com marchas, com excessos, seja com o que for, a sua plena cidadania. Lá chegaremos à adopção.
Por outro lado, a sociedade ainda tem preconceitos discriminatórios muito enraizados e profundos, e isso vê-se até nestas discussões, como os argumentos baseados no preconceito puro vêm logo ao de cima, mesmo em pessoas que acham que não são nada homófobas. A profundidade desses preconceitos, e por vezes a forma agressiva e violenta como se revelam, pode tornar problemática a adopção, porque pode criar verdadeiros e complicados problemas no processo educativo, para além dos, perdõem-me a expressão, 'estafados' problemas psicológicos nas crianças.
Mas neste como noutros domínios, de facto não tenho certezas. Possivelmente estou a ver mal a questão, ou, provavelmente, não a estou a ver toda!
Agora o que eu acho é que a luta reivindicativa pela possibilide de adopção por parte de pessoas homossexuais ou casais homossexuais, faz parte do tal processo de afirmação de plena cidadania, e, por isso, só me ouvem a ter dúvidas aqui na falsa intimidade do innersmile. Porque lá fora, claro que sou 100% a favor da possibilidade de adopção.